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Boletim Especial n. 9 - 31/03/2020


 

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A Globalização Perversa da COVID-19 : o exemplo de Rondônia

Por Maria Madalena de Aguiar Cavalcante


Os registros dos números de casos confirmados e de mortes da COVID-19 na China, e posteriormente na Itália, chamou a atenção do mundo em relação à pandemia. O novo coronavírus chega ao Brasil, no estado de São Paulo, em meados de fevereiro, do corrente ano. Diante do cenário catastrófico que se configura no país e no mundo, este é um primeiro esboço do registro espaço-temporal dos suspeitos e casos confirmados no estado de Rondônia, evidenciando a importância da obtenção de informações sobre a evolução da COVID-19 de modo diário e por municípios, como auxílio às ações preventivas, corretivas ou restritivas tomadas pelos órgãos públicos.


A confirmação do primeiro caso da COVID-19 no Brasil mostra que a circulação de pessoas no mundo globalizado reflete a perspectiva difundida pelo geógrafo Milton Santos a respeito da Globalização Perversa, quando afirma que enquanto a ação humana se mundializa por meio da tecnologia – aparelhos e fluxo de capital - todavia essa perversidade apresenta a fragilidade da técnica e os avanços da tecnologia. No caso do novo coronavírus, não demorou muito para que se disseminasse nos demais continentes, atingindo todas as classes sociais, sendo ele capaz de promover o fechamento das fronteiras, para proibir a circulação de pessoas, evitar a conectividade, na tentativa de conter e minimizar as redes de contágio.

A pandemia que amedronta os brasileiros se originou no circuito da classe superior brasileira, com a chegada de um indivíduo da Europa que, ao retornar para o Brasil, fez com que a COVID-19 chegasse ao circuito inferior da sociedade brasileira, expandindo-se (Mapa 1) do Sudeste (ênfase SP e RJ), ao Nordeste (destaque no CE) e chegando ao Norte no mês de março.

Mapa 1

Boletim9 figura1 

O avanço exponencial que se configura no país em relação à contaminação pelo novo coronavírus e, sobretudo, com o registro do primeiro caso de morte (24/03/2020) na região Norte do Brasil, o GOT-Amazônia a partir das Geotecnologias, espacializou os casos suspeitos e confirmados no intento de, em um primeiro momento, evidenciar esse fenômeno na escala estadual. 


A Covid-19 chega ao estado de Rondônia, por um indivíduo residente de São Paulo que estava a trabalho no município de Ji-Paraná/RO. A partir do dia 14 de março, iniciam-se os registros dos casos suspeitos, em Boletins Diários, pela Agência Estadual de Vigilância em Saúde (AGEVISA) e a Secretaria de Estado da Saúde (SESAU), com destaque para o município de Ariquemes (09 suspeitos), seguido de casos suspeitos em Cacoal (02), Ji-Paraná (02) e Porto Velho (02) (Mapa 2). Uma semana depois do primeiro Boletim Oficial, Porto Velho lidera o número de casos suspeitos (89) no estado de Rondônia, seguido por Ji-Paraná (23), incluindo novos municípios com mais casos suspeitos.

Mapa 2

Boletim9 figura2  

É possível verificar nos mapas que as cidades acometidas por casos suspeitos e confirmados em Rondônia possuem uma relação direta com fluxos de pessoas pela BR-364 ou aeroportos. A localização dos suspeitos ou infectados torna-se uma estratégia para o retardamento da propagação, uma vez que as medidas restritivas ainda são as melhores alternativas a serem tomadas, de modo a resguardar a população dos municípios onde a COVID-19 ainda não atingiu, ou até mesmo onde o contágio já ocorreu, mas como forma de evitar o aumento da contaminação em um curto espaço de tempo. Impedindo desse modo um caos no sistema de saúde, como já amplamente divulgado nos noticiários, pois o mesmo não comportaria o atendimento, ao mesmo tempo, de uma grande demanda provocada pela pandemia.


Os registros diários da Covid-19 por município foram feitos pela Secretaria Estadual de Saúde até o dia 22 de março, com interrupção da divulgação dos dados nos dias 23 e 24 de março (Gráfico 1). O retorno da divulgação se deu a partir do dia 25 de março, apenas para os dados totais do estado de Rondônia para casos notificados/suspeitos, o que não permite mais evidenciar a situação para cada município como demonstra o Gráfico 1.


Gráfico 1

Boletim9 figura3Fonte: Secretaria Estadual de Saúde – SESAU (2020)


O monitoramento diário, inclusive com os endereços dos casos, sobretudo os confirmados, torna-se importantíssimo para a espacialização e possíveis analogias, contribuindo significativamente para o enfrentamento do quadro que se torna cada vez mais preocupante, como demonstra o Gráfico 2. Os casos confirmados têm sido crescentes até o dia 27, cujo total de casos confirmados em Rondônia é de seis (06), sendo um (01) no município de Ji-Paraná e cinco (05) casos confirmados em Porto Velho.

Gráfico 2

Boletim9 figura4
Fonte: Secretaria Estadual de Saúde – SESAU (2020)

A partir do dia vinte e seis (26) de março, Rondônia deixou de fazer os testes para COVID-19 pela ausência de kits e que devido a ‘instabilidade no fluxo aéreo’ no país, o material até na manhã de domingo não havia chegado. Enquanto isso, os dados foram divulgados nos Boletins Oficiais da AGEVISA (n. 12, 13, 14 e 15) repetindo o mesmo quantitativo de seis (06) casos confirmados para COVID-19, dando ao público a falsa impressão de que o quadro de contaminação estivesse estável, quando, na verdade, as informações estão sendo subdimensionadas até que novos registros sejam feitos. Os novos registros retomaram a partir da chegada dos kits para os testes do coronavírus, na tarde do dia 29 de março, mas os dados não foram mais divulgados por municípios, apenas dados gerais do estado, não permitindo a espacialização das informações de modo detalhado. Tal episódio torna-se um agravante para o planejamento. Não havendo informações dos quantitativos de casos confirmados ou de suspeitos por área de abrangência, qual a média ou frequência de projeção? Onde ocorrem? Essas informações são fundamentais para saber qual a capacidade técnica e operacional de cada município diante dos dados da COVID-19, de modo que melhor possam se planejar e responderem às demandas.


Por fim, o vírus apresenta um grande poder de contágio, para tornar mais lento o processo e retardar o número de pessoas infectadas, medidas e ações restritivas têm sido as mais indicadas para conter o avanço da contaminação. As polêmicas e pressões acerca de tais medidas têm sido propagadas, no entanto, conforme lembra Leonardo Boff (2020), até a presente data o novo coronavírus não pôde ser destruído, apenas impedido de se propagar. Essa conectividade em rede é o que tem contribuído para a rápida circulação do vírus, tem assustado o mundo, paralisando o convívio social, acarretando o isolamento da população, fragmentando as famílias, perdendo o domínio sobre a própria rotina que passa a ser controlada pelos representantes políticos de cada território.

Os dados apresentados neste boletim compõem uma parte das ações iniciada pela Rede Norte-Nordeste de Pesquisadores na Pós-Graduação em Geografia (RENNEGEO). Essas informações estão disponíveis em nosso acervo de mapas com informações do COVID-19 por meio da pagina eletrônica http://www.rennegeo.unir.br/arquivo. A sistematização dos dados do estado de Rondônia foi organizada pelo GOT-Amazônia http://www.got-amazonia.unir.br/.

Maria Madalena de Aguiar Cavalcante é Professora do Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal de Rondônia. Líder do Grupo de Pesquisa em Geografia e Ordenamento do Território na Amazônia (GOT-Amazônia). Contato: mada.geoplan@gmail.com


Referências:


Leonardo Boff. O coronavírus: a auto-defesa da própria Terra (2020). Disponível em: https://leonardoboff.wordpress.com/ acessado em 25 de março de 2020.

SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal”, Rio de Janeiro / São Paulo, Record. (2000)

Rondônia. Agência Estadual de Vigilância em Saúde (Agevisa) e a Secretaria de Estado da Saúde (Sesau), boletins referentes ao coronavírus (Covid-19) no Estado. Disponível em: http://www.rondonia.ro.gov.br/ acessado em 29 de março de 2020.

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Este texto é parte de uma série de boletins sequenciais sobre o coronavírus e Ciências Sociais que está sendo publicada ao longo das próximas semanas. Trata-se de uma ação conjunta que reúne a Associação Nacional de Pós-Graduação em Ciências Sociais (ANPOCS), a Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS), a Associação Brasileira de Antropologia (ABA), a Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP) e a Associação dos Cientistas Sociais da Religião do Mercosul (ACSRM). Nos canais oficiais dessas associações estamos circulando textos curtos, que apresentam trabalhos que refletiram sobre epidemias. Esse é um esforço para continuar dando visibilidade ao que produzimos e também de afirmar a relevância dessas ciências para o enfrentamento da crise que estamos atravessando.

A publicação deste boletim também conta com o apoio da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC/SC), da Associação Nacional de Pós-Graduação em Geografia (ANPEGE), da Associação Nacional de Pós-Graduação em História (ANPUH), da Associação Nacional de Pós graduação e Pesquisa em Letras e Linguística (Anpoll) e da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional (Anpur).

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