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Boletim Especial n. 19 - 13/04/2020


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Templos em tempo de pandemia

Por Ronaldo de Almeida e Clayton Guerreiro

 

Disse Jesus em Mateus 18:20 “Onde houver dois ou três reunidos em meu nome, ali estou no meio deles”. Mas o que fazer quando um vírus (agnóstico e penetra) ameaça contaminar a roda de fiéis e levá-los à doença e, em alguns casos, à morte?

Como é de se esperar em momentos com ares apocalíticos, as religiões são interpeladas a orientar seus adeptos e a darem sentido à possibilidade de morte coletiva que se avizinha.


As religiões de matriz afro-brasileira não têm um centro de comando unificado, mas, por notícias vindas de vários lugares, os terreiros têm aderido ao isolamento social. A Federação Espírita Brasileira orientou os centros espíritas a seguirem as diretrizes dos órgãos de saúde, e salientou que as atividades continuam, embora virtualmente.


Sinagogas judaicas e mesquitas islâmicas, igualmente, orientam suas respectivas comunidades a manter o isolamento sanitário. Lideranças políticas em Israel e na Palestina iniciaram um acordo para a suspensão temporária de conflitos históricos. Vale morrer pela guerra política-religiosa, mas não por um vírus recém-nascido.


A posição da Igreja Católica foi dada pelo Papa Francisco. A recomendação é para ficar em casa, enquanto os templos ficam abertos para orações sem aglomeração. Em uma cena que ficará para a história, Francisco celebrou sozinho, embaixo de fina chuva, uma missa na Praça de São Pedro, concedendo o perdão aos que morrerem por causa do vírus.


Os casos mais controversos, contudo, têm vindo do meio evangélico, no qual as reações ao problema teológico-sanitário variam conforme a fé genuína, o sentimento de solidariedade, a demagogia religiosa e o oportunismo irresponsável.


De modo geral, protestantes históricos e pentecostais têm seguido as orientações sanitárias de fechar os templos para cultos, mas mantendo-os abertos para orações ou atendimentos individualizados. Nas redes digitais explodiram os cultos on-line. Para estes evangélicos, a virtualidade da internet não é impedimento para a presença de Cristo.


Mas, no sentido oposto, alguns líderes pentecostais têm resistido, desde o início, ao cancelamento dos cultos. Silas Malafaia, Bispo Macedo, R.R. Soares, Valdemiro Santiago, e outros nomes menos expressivos, têm reverberado as mensagens de Messias Bolsonaro. Três pontos parecem-nos centrais desse posicionamento.


Primeiro, a relação entre as leis dos homens e a lei de Deus. A quem obedecer? Afirmando que as igrejas são o último refúgio para os desesperados, Bolsonaro e estas lideranças evocaram a liberdade religiosa garantida pela Constituição, mas sem levar em consideração a excepcionalidade do momento e o fato de que a própria Constituição garante o bem-estar de todos cidadãos, religiosos ou não.


Segundo, a centralidade dos templos na prática religiosa, justamente entre aqueles que mais se valem da internet, da televisão e do rádio. Não é por acaso que estas lideranças estão sendo acusadas, por não religiosos e por religiosos, de terem interesses econômicos. Afinal, como fica a arrecadação de ofertas e dízimos se os templos estão fechados? É curioso como os discursos destas lideranças se somam aos de empresários do ramo varejista. Se a “lojinha” (e os templos?) fechar, ela quebra.


Terceiro, o discurso apocalíptico. Das pragas no Egito do livro de Êxodo às profecias do Apocalipse, a pregação sinaliza que o vírus seria uma espécie de flagelo de Deus ou sinais da segunda vinda de Cristo. Nestes casos, as mortes em massa são inevitáveis. Atenção: isto serve como vacina teológica para as igrejas milagreiras que dizem curar semanalmente milhares de pessoas, mas não conseguem estancar a pandemia em curso.

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Foto: Bolsonaro visita o Templo de Salomão. 
Retirada da Folha de S. Paulo/Alan Santos

 

Para concluir, vale citar os casos desastrosos das igrejas La Porte Ouverte, na França, e da Shincheonji Church of Jesus¹, na Coreia do Sul. Ao insistirem na imunidade espiritual contra o coronavírus, ambas se tornaram focos de disseminação da doença. Posteriormente, o fundador da igreja coreana chegou a pedir publicamente perdão à população, mas já era tarde. Deus pode tê-lo perdoado, mas o vírus que não professa fé alguma não perdoou.


Oremos (sós)!

Ronaldo de Almeida é professor do departamento de Antropologia da Unicamp e pesquisador do Cebrap. Autor de A Igreja Universal e seus demônios pela Ed. Terceiro Nome.

Clayton Guerreiro é doutorando em Ciências Sociais pela Unicamp.

 

¹ https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2020/03/normalidade-na-coreia-do-sul-durou-ate-mulher-ignorar-sintomas-e-ir-a-culto-religioso.shtml


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Este texto é parte de uma série de boletins sequenciais sobre o coronavírus e Ciências Sociais que está sendo publicada ao longo das próximas semanas. Trata-se de uma ação conjunta que reúne a Associação Nacional de Pós-Graduação em Ciências Sociais (ANPOCS), a Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS), a Associação Brasileira de Antropologia (ABA), a Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP) e a Associação dos Cientistas Sociais da Religião do Mercosul (ACSRM). Nos canais oficiais dessas associações estamos circulando textos curtos, que apresentam trabalhos que refletiram sobre epidemias. Esse é um esforço para continuar dando visibilidade ao que produzimos e também de afirmar a relevância dessas ciências para o enfrentamento da crise que estamos atravessando.

A publicação deste boletim também conta com o apoio da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC/SC), da Associação Nacional de Pós-Graduação em Geografia (ANPEGE), da Associação Nacional de Pós-Graduação em História (ANPUH), da Associação Nacional de Pós graduação e Pesquisa em Letras e Linguística (Anpoll) e da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional (Anpur).

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