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Boletim Especial n. 26 - 23/04/2020


A afirmação constante dos maiores de 60 anos como o grupo de risco desta pandemia tem nos colocado diante de questões discriminatórias, falta de conhecimento e de empatia com essa população. Essa é a temática abordada pelos dois textos do boletim de hoje, um deles escrito por Jane Beltrão (UFPA) e o outro por Heloisa Pait (Unesp).


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Autonomia não se confunde com teimosia! 

Discriminação por idade em tempos de COVID-19

 

Por Jane Felipe Beltrão 

 

Em tempos de pandemia, vejo com preocupação as posições discriminatórias ganharem força. E penso que a luta antidiscriminatória/antirracista precisa entrar em ação!

Afinal discriminação racista se manifesta usando muitas fórmulas e traz consigo subterfúgios que impõem aos demais uma História que nega os direitos políticos e sociais e mantêm as hierarquias semeadas com a diáspora africana.

 

Se enganam os que pensam que a discriminação e o racismo só se manifestam contra os povos negros, ou contra pessoas pretas, ele é insidioso e corrói as estruturas sociais por dentro, como se fosse uma broca que penetra a madeira para deixá-la oca, frágil. A discriminação racista se associa a outros marcadores sociais da diferença que são usados não para mostrar a beleza da pluralidade do ser diverso, mas para apontar as diferenças como desigualdades. 

 

Temos que reagir e devemos fazê-lo veementemente, pois muitas vezes o racismo associado às discriminações de gênero, ao “etarismo” que afasta tanto as/os mais velhas/os, como as crianças e os jovens, fazendo com que o “adultocentrismo” desautorize e desrespeite as/os mais velhas/os porque teriam perdido a capacidade de serem ouvidas/os e as crianças e as/os jovens por não terem maturidade.

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Ilustração de  Camille Barata, doutoranda em Antropologia na UFPA

Afinal, o que é o etarismo, etaísmo ou idadismo?  Estas palavras são pouco frequentes no português usual, mas elas se referem a uma categoria que indica estar relacionada à discriminação por idade, ou de caráter geracional, voltada contra pessoas ou grupos, fundamentada na idade, não importa se as pessoas alvo do preconceito que discrimina são crianças, jovens ou pessoas velhas. É uma poderosa forma de afastar as pessoas, desautorizando seus atos, impedindo-as/os de exercer seus direitos, fato que em si sugere violações inomináveis de direitos humanos. Ponha-se no lugar das pessoas!

 

No mais das vezes, o idadismo chega a nós por intermédio de brincadeiras, piadas e mesmo de “encarnação”, como dizemos nós, as/os paraenses, – ações que hoje se conhece pelo anglicismo bullyings – e, nós mesmos, discriminadas/os pelas expressões desrespeitosas, não nos damos conta do racismo recreativo, como ensina, Adilson Moreira (2019). Pensem comigo, quando recebemos em nossas caixas de mensagens, agora durante a Pandemia do COVID-19, imagens prendendo pessoas velhas em gaiolas; substituindo a placa de idosa/o pela inscrição teimosa/o, é de se revoltar. Afinal o que os preconceituosos traduzem como teimosia é a expressão de nossa autonomia e da possibilidade de preservá-la.

 

Mas pasmem, alguns de nós ainda reproduzem as imagens, rindo de nós mesmas/os. Situações semelhantes são reproduzidas pelas pessoas adultas em relação às crianças e às/aos jovens. 

 

Há algum tempo, vi uma imagem que considerei aviltante, um homem que, creio eu, não dando conta de acarinhar uma criança pequena, deixou-se fotografar deitado e tendo ao lado a criança presa por uma bacia larga e furada, dessas que se coloca roupas para arejar. Fiquei horrorizada! Os exemplos são descritos para que vocês pensem o quanto estamos de olhos vendados para o racismo. Faz-se necessário acordar.

 

Voltando à pandemia que nos atormenta e pesem os efeitos de tais atitudes, são muitas. As pessoas alvo da “encarnação” – crianças, jovens ou idosas – podem se sentir melindradas, desprezadas, inferiorizadas. Evitar atitudes preconceituosas e discriminatórias é ato de cidadania, especialmente quando todas/os estão fragilizadas/os pela interrupção da rotina.

 

Nosso cotidiano apresenta-se difícil pelo receio de ser alcançado/a pelo coronavírus, especialmente porque todos os dias se ouve falar em “grupos de risco” e dentro da perspectiva se colocam pessoas velhas, povos indígenas, mas as autoridades esquecem de informar que nós idosas/os e os povos indígenas não somos pessoas perigosas e, sim, pessoas que ao contrair o tal vírus devastador temos maiores chances de ter o quadro de adoecimento complexificado. E, talvez por isso, na hora das difíceis escolhas, de saber quem ocupa o leito com possibilidades de cura, como vêm referindo as/os médicas/os, não vale a pena ocupar um leito com uma pessoa velha, afinal ela vai morrer mais rápido que uma pessoa jovem.

 

É verdade, a chance de alguém com mais de 60 anos morrer, antes de alguém de 40 anos é plausível, mas pensem na crueldade, no massacre, no extermínio que hoje é chamado genocídio. É preciso refletir sobre esta forma racista de tratar pessoas e povos que são socialmente importantes. O que antes se chamava limpeza étnica, podemos hoje chamar de limpeza etária, ou para ser tão cruel como os que discriminam, trata-se de faxina etária.

 

Das crianças e de jovens se diz que eles são assintomáticos/as, e as questões relativas ao distanciamento social não são referidas de forma drástica em relação a este grupo etário. A falta de atenção em relação ao tesouro representado por crianças e jovens, não é também uma forma de racismo? Evidentemente, respondo sim. Porque o distanciamento social que, em alguns lugares, pode ser denominado abandono, está atingindo abrigos de crianças e jovens que podem estar sendo açoitados pelo coronavírus. E o mundo não se deu conta, ou essas vidas precárias não carecem de luto, como ensina Judith Butler (2017). 

 

Ao precarizar a existência humana estamos praticando o racismo. Pensem que a lista, dos poucos casos citados, pode ser exponencialmente aumentada. Sugiro que pensem na situação dos presídios, dos jovens negros, dos moradores/as de rua e tantas outras pessoas que podem ser trazidas a lume para demonstrar que as vidas desses seres humanos vulnerabilizados pouco importam ao Estado, visto que não são dignos de ficar ou vestir luto por elas/es. E as/os parentes destas pessoas, muitas vezes, não possuem sequer a possibilidade de enterrar e chorar seus entes queridos, tal é a brutalidade com que o Estado lhes arrebata esta possibilidade. E, ainda, não chegamos no momento mais drástico da pandemia.

 

Sejamos antidiscriminatórios/antirracistas e, em coro, se diga, como Zélia Amador de Deus (2020), “... precisamos consertar o mundo!” O mundo não está de ponta cabeça apenas pela pandemia, ele vinha desacertado de muito tempo. A COVID-19 atinge a todas as pessoas e a única resposta possível, para amenizar os efeitos da Pandemia, é o distanciamento social, porque estamos respondendo pela falta de cobro das autoridades que, no Brasil, decretaram a falência do Sistema Único de Saúde (SUS) e, ao mesmo tempo, temos que contar com o SUS, pois a rede privada também não responde às demandas do tempo de coronavírus. Percebem o paradoxo. 

 

Mesmo que você duvide do que digo, “te aquieta em casa”! A ordem é evitar o pior! Mas, atenção, não são só as/os mais velhas/os que precisam estar em casa, é indispensável que a sociedade - e aqui não se inclui somente as pessoas, mas as instituições e as empresas - o esforço é social e ele implica em direitos e obrigações, especialmente porque não se sabe como, nem de que tamanho será a incidência do vírus no Brasil.

 

Jane Felipe Beltrão é professora titular da Universidade Federal do Pará (UFPA). Bolsista de produtividade em pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) nível 1B. E-mail: janebeltrao@gmail.com  

 

Para ler mais sobre o antirracismo:

Amador de Deus, Zélia. 2020. Caminhos trilhados na luta antirracista. Belo Horizonte: Autêntica. (Coleção Cultura Negra e Identidades)

Butler, Judith. 2015. Quadros de Guerra, quando a vida é passível de luto? Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.

Moreira, Adilson. 2019. Racismo Recreativo. São Paulo: Sueli Carneiro/Pólen.


A vida dos “velhinhos”, as conexões sociais e as lideranças institucionais

Por Heloisa Pait

 

Desde a campanha eleitoral, o atual presidente da república deixou claro que seu governo seria baseado na exclusão ativa e deliberada de certos grupos sociais. Pareceu a alguns distraídos que se tratava apenas de uma reação às enormes conquistas que negros, homossexuais e mulheres haviam obtido nas últimas décadas, e não um projeto mais profundo, baseado no ódio, assemelhado aos projetos totalitários do século XX. Viram nas passeatas de mulheres de 2018, com jovens vestidas de modo exuberante, um bando de histéricas que mereciam levar uma lição nas urnas, surdos para o claro alerta de que os direitos estava em jogo.

 

Mas, e os velhinhos? Como é que saímos do desprezo aos negros, às mulheres, aos homossexuais, e mesmo aos indígenas a quem nossa ideologia nacionalista deu destaque, para chegar nesse profundo descaso com a vida dos idosos? Chegamos pois foi daí, do desprezo à vida, da tortura e do terrorismo, que partimos. E, como o debate se dá em torno da vida, é natural que muitos no debate público tenham se lançado à defesa da vida dos idosos como valor em si, e também como patrimônio das famílias, que se dedicam emocional e financeiramente ao bem estar de seus progenitores. Só que os velhinhos não são apenas bons avós. É disso que quero falar.

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Ilustração de  Camille Barata, doutoranda em Antropologia na UFPA

Hoje, com a expectativa de vida se alargando, muitos idosos mantêm vida ativa muito além dos 60 anos, que é quando o risco de vida começa a subir significativamente para a doença causada pelo coronavírus, e às vezes além dos 70 ou 80 anos. Essa atividade pode se dar na continuidade de seu trabalho, gerando renda e às vezes auxiliando os membros mais jovens da família. Pode ser em serviços diretos a esses membros, como cuidar dos mais jovens ou da casa. Essa é uma ajuda significativa, que não deve ser menosprezada. Além disso, muitos idosos ativos, por terem maior experiência de vida, são também referência moral em suas famílias e comunidades, servindo de fonte de conhecimento e norte em momentos de precisão. Vamos lembrar que, como espécie, começamos a evoluir de verdade quando a expectativa de vida subiu até o ponto em que os avós puderam ajudar na criação do netos. A perda dos idosos é uma perda social e econômica palpável, além da inegável perda emocional e familiar.

 

Mas há, entre estes ativos idosos que contribuem com seu trabalho, auxílio e ensinamentos, outros idosos muito bem sucedidos em suas atividades, seja artísticas, científicas, nos negócios, na política e na sociedade civil. Os ícones jovens dos anos 1960, os empresários da tecnologia como Steve Jobs e Bill Gates nos anos 1980, e as startups dos anos 2000 podem nos ter dado a impressão de que os jovens lideram a sociedade contemporânea. Mas olhe à volta. Ainda no final de março tivemos, no mesmo dia, a morte de dois maestros importantes em São Paulo, o Maestro Martinho Lutero e a Maestrina Naomi Munakata. Cada morte é uma perda, mas duas no mesmo dia dará aos músicos paulistas a sensação de desamparo que os órfãos têm, pois a situação é de orfandade mesmo. Pela sua experiência, e também pela sua trajetória,  os dois maestros eram elos que ligavam antigos alunos com jovens iniciantes, musicistas internacionais e locais, o mundo da música e o público. Ao longo de sua trajetória profissional, foram forjando relações de tal modo que se tornaram “hubs” de relações no mundo da música e da arte.

 

Pense nisso para cada área de atuação. Imagine, na universidade, reitores e pesquisadores longevos, com muitos orientandos. Nos negócios, empresários com contatos internacionais e com o mundo das ciências e dos governos. Nas artes, diretores de teatro e cinema e atores consagrados. Na política, as vozes mais experientes do dia-a-dia de negociações, que são consultadas pelos novatos, e podem até já ter ouvido falar de Kissinger. Na medicina, os diretores de hospitais e médicos experientes que conhecem muitos médicos, que foram seus alunos e assistentes, em torno de quem a informação circula e novas pesquisas se desenham. Esse grupo humano não é apenas um grupo que prestou bons serviços à nação e merece respeito, ainda que só isso já bastaria. Também não é apenas um grupo que tem uma experiência acumulada substantiva que não deve ser perdida de um momento para outro.

 

Cada idoso em posição de liderança é um “hub” gigantesco ligando gerações distintas, locais distintos, áreas de atuação distintas. O sumiço de um desses “hubs” é uma dor, que as pessoas e instituições conseguem lidar através de seus lutos e normas de sucessão, pois é, afinal de contas, a ordem natural da vida: os idosos alguma hora se vão. O sumiço de vários desses hubs, o que sem dúvida vai acontecer durante a epidemia de coronavírus, será traumático, pois as pessoas e instituições terão que se adaptar a perdas sucessivas e refazer os múltiplos laços que anteriormente passavam por esses líderes. Agora, se ignorarmos as recomendações de isolamento social, aí teremos uma catástrofe de liderança, pois ao mesmo tempo estaremos perdendo incontáveis conexões sociais importantes nos negócios, na política, na sociedade civil, nas artes e nas comunidades étnicas e religiosas. Teremos uma crise política no sentido mais profundo do termo: uma crise de liderança, por absoluta falta física dos “velhinhos” que dirigem nossos hospitais, universidades, templos, empresas, partidos e demais instituições essenciais para a vida humana.

 

Não temos como saber se a mortandade de líderes é algo desejado pelo atual líder do executivo, ou se é apenas consequência de sua política geral nefasta. Mas temos como saber que país queremos que emerja da pandemia. Podemos ter uma nação em choque por perdas sucessivas, desarticulada e incapaz. Ou então um país em luto, mas certo de que fez o melhor que podia, que salvou o máximo de pessoas, idosos e jovens, e que ainda conta com capacidade para agir. Com seus velhinhos.

 

Heloisa Pait foi bolsista da Comissão Fulbright e atualmente é professora assistente de sociologia da Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho. Atualmente, ela edita a Revista Pasmas, uma revista online de mulheres com voz autônoma. O texto acima foi publicado originalmente na Revista Pasmas.

 

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Estes textos são parte de uma série de boletins sequenciais sobre o coronavírus e Ciências Sociais que está sendo publicada ao longo das próximas semanas. Trata-se de uma ação conjunta que reúne a Associação Nacional de Pós-Graduação em Ciências Sociais (ANPOCS), a Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS), a Associação Brasileira de Antropologia (ABA), a Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP) e a Associação dos Cientistas Sociais da Religião do Mercosul (ACSRM). Nos canais oficiais dessas associações estamos circulando textos curtos, que apresentam trabalhos que refletiram sobre epidemias. Esse é um esforço para continuar dando visibilidade ao que produzimos e também de afirmar a relevância dessas ciências para o enfrentamento da crise que estamos atravessando.

 

A publicação deste boletim também conta com o apoio da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC/SC), da Associação Nacional de Pós-Graduação em Geografia (ANPEGE), da Associação Nacional de Pós-Graduação em História (ANPUH), da Associação Nacional de Pós graduação e Pesquisa em Letras e Linguística (Anpoll) e da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional (Anpur).

 

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