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Boletim Especial n. 40 - 14/05/2020


No boletim n.40, Pedro Henrique Torres (USP/UCSB) ressalta a necessidade de falarmos sobre os impactos do coronavírus no mundo e na vida social da perspectiva da periferia do sistema-mundo, colocando as ciências sociais como produtoras importantes das narrativas e conhecimentos que poderão ser gerados a partir disso. E José Miguel Olivar (USP) fabula sobre questões relativas à vida e à morte, que já estavam em jogo em uma sociedade tão desigual como a nossa, mas agora evidenciadas pela pandemia: quem vive e morre, e como?

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Território e Vida Mental: Notas sobre o “mundo pós COVID-19” do lado de cá do planeta


Por Pedro Henrique Campello Torres

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© Angelina Bambina in FREEPIK, 20201

Karl Polanyi abre seu célebre livro, A Grande Transformação (1980), com a sentença de que a civilização do século XIX havia colapsado. Georg Simmel, meio século antes de Polanyi, em conferência que virou texto clássico nos estudos de sociologia urbana, A Metrópole e a Vida Mental (1973), apontou transformações e estratégias de defesa comportamentais no seio da sociedade de massa que se formava no século XIX e produzia o espaço das grandes cidades europeias. A atitude blasé, fenômeno psíquico reservado à metrópole, acrescida à fonte que advém da economia do dinheiro, "consiste no embotamento do poder de discriminar" (SIMMEL, p. 16, 1973). A antipatia, diria Simmel, protege os citadinos da indiferença e da sugestibilidade indiscriminada. Seria a metrópole, portanto, fornecedora da arena para o combate e a reconciliação dos combates.


A civilização do século XX parece estar colapsando com a propagação do vírus do COVID-19. Recorrendo a Simmel, é possível identificar o início de uma transição comportamental no território e seu tecido social (LEFEBVRE, 1991) decorrente da conjuntura presente. Nesse sentido, é imperativo compreender a importância do território e sua hierarquização, conceitos já trabalhados por diversos autores do campo, como Bourdieu (1993), Simmel (1973), e, no Brasil, Luiz César de Queiroz (RIBEIRO, 2016), entre tantos outros. A questão também nos remete a temas que entrelaçam os estudos sobre cidades, a violência e a “cidadania escassa” (CARVALHO, 1995), assim como a diversidade e a desigualdade pujante em nosso país e sua expressão no espaço produzido (BURGOS; TROINA, 2020).


Esse movimento nos ajuda a compreender, portanto, que a COVID-19 não tem impacto democrático no território (TORRES; LINKE, 2020). Ou seja, existe uma hierarquia espacial que expõe uma desigualdade locacional do impacto desse vírus na sociedade brasileira. Estudos posteriores vão confirmar e trazer com força a noção de justiça ambiental, evidenciando que os mais pobres, ou os que vivem em condições mais vulneráveis (ACSELRAD, 2010), são os mais atingidos. Ou, ainda, que os mais atingidos são aqueles que possuem comorbidades fruto de desigualdades ambientais como a poluição do ar, ou o não acesso à água.


Dado o contorno estrutural que marca o particular processo de formação do país, me parece importante refletir não necessariamente como o mundo estará no pós-Covid, mas, antes disso, pensar a partir de nosso local, do Brasil e da América Latina como periferia do sistema-mundo, para refletir como essas mudanças podem ter hierarquias também na forma que elas são sentidas e apreciadas nas diversas partes do planeta.


No clássico Orientalismo: O Oriente como Invenção do Ocidente, Edward Said (1990) desconstrói a noção forjada pela literatura europeia que dividia o mundo entre uma porção oriental (repleta de preconceitos, adjetivos e exotismo) e outra do ocidente, berço da civilização e bastião daquilo que deveria ser perseguido pela outra fração do planeta.


A análise momentânea dos números de contaminados pela Covid-19 e as formas de planejamento e reação dos governos na chamada parte oriental do planeta expõem diversos aprendizados. Partindo de uma reflexão decolonial, no mundo que se anuncia novo para a fração dita ocidental do globo, a percepção é que o fenômeno já vem sendo experienciado – guardadas as devidas proporções – em países como a China, o Japão, Singapura, Coréia do Sul, entre outros, sobretudo no sudeste asiático.


Cidades inteiras produzidas com alta densidade de residentes não estão registrando, nas localidades acima citadas, considerados índices de propagação do vírus, como, por exemplo, em cidades nos Estados Unidos ou da Europa2. O processo é mais complexo. E acerta Simmel em seu diagnóstico sobre o século XIX, e que podemos empregar aqui: trata-se da relação com a formação da psique, ou, em suas palavras, com a formação da vida mental.


A sociabilidade e afetividade particular em parte da sociedade latina e seu modo de reagir a estímulos como abraços, beijos, apertos de mãos, entre outros, está sendo ressignificada nesse momento. Como será no mundo pós-Covid ainda parece cedo para sentenciar. Pouco sabemos sobre o mundo pós-Covid, mas no mundo com Covid, a mudança de comportamento, ou seja, da vida mental, tende a ser distinta nos diversos territórios do planeta, evidenciando não apenas os processos de formação histórica, mas suas hierarquias espaciais. Por exemplo, se até ontem causava estranhamento o uso de máscaras faciais no continente americano, na África, ou Europa, agora a tendência é que seu uso seja mais corriqueiro e usual.


A primeira ida ao supermercado fazendo uso de máscara e luvas é uma experiência de choque comportamental, atinge o moderno ethos ocidental. Com a repetição, se inicia um processo de naturalização ou formações de estratégias comportamentais individuais. Simmel alertava que os problemas mais graves da vida moderna adivinham da necessidade do indivíduo em preservar sua autonomia e individualidade “em face das esmagadoras forças sociais, da herança histórica, de cultura externa e da técnica da vida.” (SIMMEL, p.10, 1973). Como reagirmos, em nossa porção do planeta, face a esse desafio?

 

A pandemia global da COVID-19 atingiu a todos com força, seja qual área ou campo do conhecimento se pertença. As ciência sociais têm enorme potencial de contribuir com o debate científico e necessariamente multidisciplinar diante do desafio conjuntural que se põe. Seja do ponto de vista do diagnóstico, quanto do propositivo analítico. As cidades são produzidas e reproduzidas de forma material e simbólica. Diversas narrativas estão permeando e escrevendo as cidades da Covid em seus mais diversos territórios nesse momento.


São inúmeras as possíveis contribuições das ciências sociais em suas mais diversas dimensões – e suas ciências correlatas – para a reflexão acerca da COVID-19. Não se trata de discuti-las no presente ensaio. Pois, tal qual o esforço que teve de ser feito dentro do próprio campo em relação à questão ambiental, ou, mais especificamente, em relação às mudanças climáticas anos atrás, devemos considerar superado, já no século XXI, qualquer questionamento sobre a relevância das ciências sociais para todo e qualquer debate multidisciplinar (JACOBI, 2013).


Se hoje parece apressado estabelecer relações sobre o futuro, ou o que alguns já estão chamando de “mundo pós COVID-19”, já é possível, no entanto, buscando agir com metodologia e ciência, e não com clarividência, trabalhar alguns nortes importantes de reflexão. A história imediata, sempre complexa e território de riscos, serve senão para efeitos de análise de conjuntura, também para o uso posterior dos que forem estudar o tema nos anos seguintes, tendo como referência fontes daquele tempo pretérito.


Pedro Henrique Campello Torres é Doutor em Ciências Sociais (PUC-Rio), atualmente é Visiting Scholar na University of California (UCSB) e Pesquisador do IEE-USP.


Referências bibliográficas:


ACSELRAD, H. Ambientalização das lutas sociais – o caso do movimento por justiça ambiental. Estud. av., São Paulo, v. 24, n. 68, 2010. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-40142010000100010&script=sci_arttext&tlng=pt>.

BOURDIEU, P. Razões práticas. Rio de Janeiro, Papirus, 1993.

BURGOS, M., TROINA, A dupla cegueira para lidar com a pandemia nas favelas. Le Monde Diplomatique, 2020. Disponível em: https://diplomatique.org.br/a-dupla-cegueira-para-lidar-com-a-pandemia-nas-favelas/

CARVALHO, M. A. R. de. Cidade escassa e violência urbana. Série Estudos, Rio de Janeiro, v. 91, 1995.

JACOBI, P. São Paulo metrópole insustentável – como superar esta realidade. Cadernos Metrópole (PUCSP), v. 15, 2013.

LEFEBVRE, H. A revolução Urbana. Belo Horizonte: UFMG, 1999.

POLANYI, K. A grande transformação. Rio de Janeiro: Campus, 1980.

RIBEIRO, L. C. de Q. Metamorfoses da Ordem Urbana da Metrópole Brasileira: o caso do Rio de Janeiro. Sociologias (UFRGS), v. 18, 2016.

SAID, E. Orientalismo: O Oriente como Invenção do Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 1990

SIMMEL, G. A metrópole e a vida mental. In: O Fenômeno Urbano. OTAVIO Guilherme VELHO (org). Rio de Janeiro: Zahar, 1973.

TORRES, P., LINKE, C. Covid-19 e a política urbana: a densidade não é a vilã. Le Monde Diplomatique, 2020. Disponível em https://diplomatique.org.br/covid-19-e-a-politica-urbana-a-densidade-nao-e-a-vila/

 

1 Disponível em: https://www.freepik.com/premium-vector/coronavirus-pandemic-novel-coronavirus-2019-ncov-people-white-medical-face-mask-concept-coronavirus-quarantine-illustration-seamless-pattern_7421133.htm

 

2 O artigo “Coronavírus e o território: disseminação regional e desigualdades”, de Luciana Travassos e Bruna de Souza Fernandes, discute dados da propagação do vírus no território de São Paulo (Macrometrópole), Estado de Maharashtra (Índia) e na Ilha de Java (Indonésia). Disponível em: <http://pesquisa.ufabc.edu.br/macroamb/dialogos-socioambientais-na-macrometropole-paulista-no-5-covid19/>.

 


 

Mundos, Vida e vidas em jogo>> fabulações sobre quarentena e imaginação


Por José Miguel Nieto Olivar3

 

Apesar de tudo o que ainda deve ser dito sobre o fim-do-mundo, hoje o nosso fim-do-mundo-de-cada-dia é a pandemia de COVID-19 e sua rede sócio-técnico-política. Neste texto, apresento cinco fabulações para pensarmos o mundo quando voltarmos do resguardo/massacre; pontualmente, estas fabulações estão conduzidas a partir da minha relação intensiva com a saúde pública. Escrevo de um lugar particular: apocalíptica São Paulo, março-abril de 2020, início da pandemia aqui. Escrevo da minha casa, ora Planeta León (com seus 3 anos) ora Planeta SARS-CoV-2 (com seu fedor de poucos meses), entre aulas que não pararam, reuniões que se multiplicaram, cozinha, faxina, música e tudo em transformação.


Primeira fabulação>> Matar: COVID-19 nada mais é que uma gripezinha para fracos. A pior das forças possíveis: nem Vida nem vidas. Alocução presidencial do dia 24 de março, entre outras. “O Brasil não pode parar”. O presidente-capitão, literalmente, tira onda da pandemia, se consolida no seu negacionismo necropolítico e operacionaliza mais um golpe, dessa vez, no Ministério da Saúde. Outras bandas militares tentam tirar proveito, ensaiam pequenos golpes e então, com seus intelectuais e inspiradores, aliados, serventes e seguidores, influencers e financiadores, se configura uma assembleia de quase-humanos respirando caos, morte e destruição. O (ex)Ministro Mandetta, médico e parlamentar do agronegócio, praticou sua incapacidade e inconsistência tecnopolítica: temeu perder seu cargo, temeu os chefes, temeu a pandemia, tentou ouvir tardiamente os técnicos; disse, como se verdade fosse, que um médico jamais abandona um paciente... Mas temos um novo Ministro que declara não-saber. Bolsonaro e sua fértil governamentalidade que leva ao infinito a catástrofe.


Segunda fabulação>> La Vida: na noite de 28 de março, depois de mais de 10 dias em casa, sonho com a cidade coberta pela fumaça das chaminés dos crematórios. A primeira imagem do mundo quando voltarmos é a morte: os milhares de humanos mortos em curto tempo.


Sanitaristas do campo acadêmico criticam ferozmente a lentidão e a mansidão do Ministro e do Ministério que não toma a decisão - brutal - de fazer um lockdown completo, de fazer uma vigilância epidemiológica mais agressivamente ativa, de não forçar distanciamento social, isolamento e quarentena. Meus colegas fazem cálculos e traduções, leem dezenas de artigos publicados ontem no Lancet, na Science; varrem o PubMed e os jornais estrangeiros, sabem tudo sobre a China, sobre Itália e Coreia do Sul, discutem ferozmente, testam argumentos e se exigem mais. As imagens das curvas, os novos descobrimentos sobre as formas do vírus e suas interações humanas, as formas das modelagens, os cálculos sobre as equipes de vigilância epidemiológica, sobre financiamento do SUS, sobre leitos, respiradores e UTIs começam a ocupar a hora-a-hora do nosso dia-a-dia.


As controvérsias derivam pelos caminhos da testagem e dos tratamentos, e a raiva da frustração com a barbárie federal aumenta.


Na metade de março os mortos começaram a chegar e começaram a ser contados. Antes do fim de abril superamos os 3.000 aqui no Brasil, seremos 10.000, 15.000, 25.000 que nos somaremos aos milhares e aos milhares e aos milhares... Sabemos apenas dos números, fetiche de uns; sabemos apenas da distribuição, fetiche dos outros... Porém, quem são estes mortos? Como morreram? A informação sobre “óbitos” é sigilo da vigilância epidemiológica. Importa saber quantos, não quem. Uma hora, nós feitos moscas, o número parará de importar. Precisamos saber quem são os mortos! Cuidá-los em vida e depois, na vida deles e delas-em-nós, nessa livusiade escala metropolitana.


Pelo visto até agora, não teremos nem sequer direito de velar nossos mortos e tocar seus tambores. Razões técnicas (leia-se: usualmente falta de imaginação ou pragmatismo humanitarista) nos impedirão. Parece que não vamos lidar com essa morte, como não lidamos com nenhuma das mortes massivas de que padecemos. Notícias de irmão de Antígona e de Antígonas entre nós: marca primeira do mundo quando voltarmos. Que Vida, que vidas, que mundos são estes então?


Terceira fabulação>> Duas classes no Antropoceno: sobre poder e perspectiva. O princípio da defesa da vida coletiva orienta a correnteza sanitarista: oposição ontológica ao regime atual. Perante a ameaça brutal da COVID-19 e seu pandemônio brasileiro todos os alarmes se ligam.


Porém, a morte massiva é uma novidade? Uma exceção? Quando? Onde? Para quem? Há algo de muito incompleto nesta fundamental preocupação com a modelagem e a prevenção da morte de humanos. Parece-me que a única chance da afirmação “Enquanto planeta, não temos uma experiência recente de mortandade como essa...” ser verdadeira não é tanto através da demonstração epidemiológica, mas da reflexão antropológica sobre o que experienciamos e praticamos como Planeta e como localização da morte e do sofrimento.


De mortandades e massacres nosso mundo/tempo é feito. Ainda que muitas vezes nem sequer vejamos. Mas só o tempo será capaz de dizer.


Então essa fabulação não é tanto sobre a metrópole de mortos com SARS-CoV-2 (estamos chegando nos 200.000 mortos e há previsões de 3 milhões de mortes no planeta, sem contar o ocultamento de dados e o descomunal subregistro). Ela desenha a morte matada de milhares ou milhões de certos humanos em que a presença do vírus será apenas um reagente, disparador ou potencializador de outras razões bio-sócio-políticas de mortalidade. Imaginávamos, e agora vamos sabendo mais, sobre a agudização dos enclaves localizados de morte nessa pandemia: terras indígenas, prisões, periferias urbanas, moradorxs e trabalhadorxs intensivas de rua, trabalhadorxs do cuidado e da segurança pública e privada... África5, Amazonas6. As mães e os pais dos meus alunos; minhas alunas elas próprias.


O pânico planetário não é só a morte, então. Mas o pânico de tornar-se sujeito de uma morte que não “nos” pertencia... Milão, New York. O outro lado desse pânico é a evidência de que o avanço do vírus em suas interações biossociais com os humanos (pandemia e pandemônios) está se mostrando altamente eficaz na regulação da fronteira bionecropolítica entre as duas classes fundamentais do capitalismo extrativista contemporâneo: quem morre e quem não morre. Quem deve morrer, morrerá, como já sugeriram as vozes mais rápidas do empresariado brasileiro e também o neo-Ministro.


Então, passadas as dezenas de milhares, as questões sobre a morte devem mudar. Estas mortes deverão ser entendidas em seus diferenciais e em relação a formas necropolíticas que atualizam; deverão ser colocadas em relação com os sistemas de trabalho, de segregação e de morte cotidiana que com insistência não geram o pânico que hoje vemos, deverão ser atravessadas por perguntas sobre persistências coloniais, e deverão ser conectadas com os sistemas de subnotificação e de distribuição geopolítica da saúde. Ou, então, simplesmente não serão compreendidas.


Quarta fabulação>> A Vida e as vidas: não apenas na morte as vidas morrem. Os óbitos com SARS-CoV-2 desenham nessa fabulação o acirramento de outras coisas, também. P. Preciado se pergunta, no melhor estilo da tradição da filosofia política-moral pós-estruturalista: “sob quais condições e de que forma a vida valeria a pena de ser vivida?”7


Dito de outra forma: na rua, morte; morte no hospital, e em casa?


A vida que defendemos e o mundo quando voltarmos passará pelos corpos-paredes das nossas casas. Auxílios de 600 reais mensais, salários cortados, desemprego, pouco sol, aglomeração ou solidão intensificada. A antropóloga Bia Accioly e outrxs mostraram evidências sobre “quarentena” e violência doméstica, sexual, de gênero . Além de pensar em quem não tem casa, nas diversas relações entre trabalho e casa, nos milhares de modelos de casa, nas prisões, nas ocupações tradicionais do território, etc., quem clamar pelo lockdown total e urgente, e o “isolamento” doméstico, deve, no mínimo, lembrar em que país essas casas-corpos existem.


A quarentena brasileira terá como matéria bruta a extrema desigualdade, o sexismo, o racismo e o classismo que nos governam desde as entranhas; a absoluta desconfiança no Estado, a esquizofrênica relação com a (des)obediência e com a “liberdade”, o extremo autoritarismo e a necropolítica em que confiamos. É necessária uma troca de perspectiva. No lugar da “nossa casa”, poderíamos tomar presídios, periferias, índios, putas, moradorxs de rua, bici-boys-de-delivery e a brutal subnotificação como perspectivas e não como casos especiais e problemáticos? Poderíamos dizer: quarentena sim, mas não - nunca, jamais - governada pelo sistema de defesa e segurança pública brasileiro. Ou, quarentena como? Com um sistema de saúde que tantos problemas tem para dar conta do racismo, do gênero, das sexualidades, corporalidades, trabalhos e farmacopolíticas divergentes como composição da sua “universalidade”? Se ainda não sabemos se o SUS dará conta, o que dizer do SUAS e dos nossos mutilados sistemas de garantia de direitos?


No momento histórico que atravessamos não precisamos que ideias de maior distanciamento social9, de reforço radical à individualidade dérmica e microbiológica, de vigilância digital, e do lar teo-heteropatriarcal-militar como refúgio sejam bandeira estável de qualquer ação política de defesa dos direitos e da vida. Precisamos entender que “social” não é um anexo ao evento principal da Vida, e nem um sufixo para descrever preocupações humanitaristas; precisamos entender que o público da saúde diz respeito à vida como uma malha social (Zoe e não apenas Bios: diriam em coro dissonante Arendt, Foucault, Agamben, Rose, Fassin) mais vasta e complexa, menos transparente, mais confusa e intrincada de dados, valores, variáveis, direitos, futuros.


Se acreditamo
s na fabricação das duas classes (a que morre e a que não) e no fortalecimento das suas fronteiras na pandemia, há outra ameaça que devemos pensar a sério: a adesão desesperada à domesticidade, ao higienismo ou a qualquer técnica, norma ou dispositivo de governo que prometa nos manter afastados do exercício de direito à morte que será exercido pelo novo soberano ciborgue, transubstancial, mutante e viral (>>rna+bit+$$$+Nb,etali+p&m+pm+doses absurdas de ódio e imbecilidade+*.>>). Talvez seja esse um dos mais terríveis efeitos da pós-pandemia.


Quinta e última fabulação>> Porém...: somos um monstro cosmopolítico bastante furioso. Indianarae (hoje com COVID-19 confirmada) tem dito: “a solidariedade ainda é o melhor remédio”10. A estratégia oficial é o isolamento e a domesticidade. Enquanto isso, agentes de saúde e da assistência social, trabalhadorxs do cuidado, do transporte, da segurança pública e privada, da limpeza e da alimentação devem permanecer na rua, no trânsito e nos seus postos de trabalho para garantir o nosso distanciamento, a nossa Vida...


Quando o pessoal da CasaNem ou as prostitutas do Brasil ou as mulheres indígenas no rio Negro ou os solitários e desarraigados urbanos, ou as minhas alunas negras, ou xs moradorxs de rua ou de determinadas periferias urbanas dizem “não vamos morrer!”, dizem “vamos nos cuidar, galera”, as forças cosmopolíticas que se ativam não são as mesmas que quando eu, professor universitário e funcionário público, digo a mesma coisa. O mundo e o curso da pandemia agem tendo a morte delas como efeito previsível, disponível ou desejado, não a minha. O grito de guerra delas deveria ser o marco novo para qualquer ação, política e escola de saúde pública. Não o meu. A nossa aliança suprema deveria ser com esse grito, e essa aliança nova deveria ser nossa orientação para atravessar a tormenta e para refundar o mundo depois. Não a aliança com nós mesmos. O melhor remédio é, ainda, a solidariedade e a luta, a partilha do risco, como poderia dizer Juma Santos11; as formas de vida social (logo nem prolongadamente isoladas nem intensamente distanciadas) de quem já viu seu mundo acabar muitas vezes e continuou a andar.


Essas pessoas encontrarão outro mundo porque habitam outro mundo porque praticam outro mundo.

 

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Lourdes Barreto (mostrando a tatuagem no antebraço) participa de um encontro promovido pelo Gempac (Grupo de Mulheres Prostitutas do Estado do Pará).
Imagem: Marie Declercq. Disponível em: tab.uol.com.br/noticias/redacao/2020/03/28/nos-somos-invisiveis-trabalhadoras-sexuais-afetadas-pelo-coronavirus.htm?cmpid=copiaecola



José Miguel Nieto Olivar é professor da Faculdade de Saúde Pública/USP.

 

3 Diversas pessoas fizeram leituras, comentários e estímulos no processo de escrita, a elas agradeço enormemente. Também agradeço aos amigxs, colegas e alunxs da Faculdade de Saúde Pública/USP, axs integrantes do CPaS-1 (Coletivo de Pesquisa em Antropologia e Saúde) e do Laboratório de Hibridação Científico-Política em Saúde Pública (LaHibrid), da FSP, pela intensidade e qualidade de trocas.

4 https://institutoimue.org/publicacoes/politicas-da-pandemia-sobre-virus-livusias-ilhas-e-discos-voadores/

5 https://g1.globo.com/bemestar/coronavirus/noticia/2020/04/09/coronavirus-3-respiradores-para-5-milhoes-de-pessoas-o-drama-da-pandemia-na-africa.ghtml

6 https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/brasil/2020/04/22/interna-brasil,846948/em-situacao-critica-amazonas-faz-valas-coletivas-para-mortos-por-covi.shtml

7 https://www.artforum.com/slant/the-losers-conspiracy-82586

8 https://www.antropologicas-epidemicas.com.br/post/mulheres-violência-doméstica-e-a-covid-19-o-que-a-tecnologia-tem-a-ver-com-isso

http://somatosphere.net/2020/against-social-distancing-a-call-for-social-solidarity-in-this-time-of-physical-distancing.html/?utm_source=feedburner&utm_medium=email&utm_campaign=Feed%3A+Somatosphere+%28Somatosphere%29

10 https://corona-lahibrid.wixsite.com/covid19/post/a-solidariedade-ainda-é-o-melhor-remédio

11 https://www.youtube.com/watch?v=ez1uZltzWsY

 

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Estes textos são parte de uma série de boletins sequenciais sobre o coronavírus e Ciências Sociais que está sendo publicada ao longo das próximas semanas. Trata-se de uma ação conjunta que reúne a Associação Nacional de Pós-Graduação em Ciências Sociais (ANPOCS), a Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS), a Associação Brasileira de Antropologia (ABA), a Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP) e a Associação dos Cientistas Sociais da Religião do Mercosul (ACSRM). Nos canais oficiais dessas associações estamos circulando textos curtos, que apresentam trabalhos que refletiram sobre epidemias. Esse é um esforço para continuar dando visibilidade ao que produzimos e também de afirmar a relevância dessas ciências para o enfrentamento da crise que estamos atravessando.

A publicação deste boletim também conta com o apoio da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC/SC), da Associação Nacional de Pós-Graduação em Geografia (ANPEGE), da Associação Nacional de Pós-Graduação em História (ANPUH), da Associação Nacional de Pós graduação e Pesquisa em Letras e Linguística (Anpoll) e da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional (Anpur).

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