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Boletim Especial n. 45 - 21/05/2020


No boletim n.45, Danyelle Gonçalves, Irapuan Filho, Rafael Freitas (LEPEC/UFCE) e Harlon Santos (UFRGS) comentam algumas conclusões a partir de um questionário online feito na cidade de Fortaleza, que abarcou quase a totalidade dos bairros da cidade, apontando para as diferenças sociais que marcam a expansão da pandemia. Carlos Mendonça (UFMG) reflete sobre as desigualdades sociais que são intensificadas pela ação do vírus, escancarando quem pode se adaptar ao novo mundo e quem fica fora do jogo que vai se construindo.

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A vida na quarentena1: Deslocamentos e aglomerações de pessoas em Fortaleza

Danyelle Nilin Gonçalves
Irapuan Peixoto Lima Filho
Harlon Romariz Rabelo Santos
Rafael de Mesquita Ferreira Freitas

Boletim45 figura1

Este é o relatório parcial de pesquisa não inferencial realizada entre 08 e 11 de abril de 2020 sobre a vida em quarentena e deslocamentos em Fortaleza-CE por ocasião da crise da Covid-19, que faz parte de duas investigações maiores: uma sobre deslocamento e mobilidade urbana e outra que se propõe a analisar a vida durante esse momento de pandemia.


O questionário online continha 15 perguntas, via Google Forms, e foi enviado pelas redes sociais (Whatsapp e Facebook) para diferentes grupos, com a indicação de que fosse respondido por moradores de Fortaleza acima de 15 anos e que fosse compartilhado para mais pessoas, de forma a dar mais capilaridade e atingir sujeitos dos mais diferentes estratos sociais.


A pesquisa se realizou na terceira semana de isolamento social, medida restritiva para conter o processo de contaminação do coronavírus, decretada pelo Governo do Estado em 19 de março de 2020 (posteriormente ampliada para 20 de abril). Fortaleza já aparecia como a cidade com maior índice proporcional de contaminação no país (34,7 casos a cada 100 mil habitantes). No dia 8 de abril já havia 1231 casos confirmados, com 43 mortes e a doença estava registrada em 93 bairros da cidade. Enquanto escrevíamos o relatório, 8 dias depois, já eram 2041 casos e mais do que o dobro de mortes (95) e a doença já estava confirmada em 114 bairros da cidade. No dia 10 de maio, já estava alastrada pela cidade inteira (11.421 casos), acometendo todos os bairros, com 832 óbitos, sendo a taxa de letalidade muito mais alta na periferia. Desde o início da pandemia, 257 novos leitos foram criados, totalizando 987. Mesmo assim, a taxa de ocupação é de 100% nas redes pública e particular.


O formulário esteve aberto durante 72 horas, obtendo 1977 respostas de residentes de 120 bairros de Fortaleza, de um total de 121. Importa salientar que os respondentes tinham algum acesso à internet.


Os dados levantados corroboram a situação de desigualdade vivida na cidade de Fortaleza. Manter o isolamento e o distanciamento social neste momento não é uma realidade para parte dos entrevistados ou suas famílias (40%). Isso se dá por questões de ordem econômica, como a obrigação de estar fisicamente no ambiente de trabalho; e por questões culturais, comportamentais e que antecedem à pandemia.


Constatou-se que as áreas onde vivem as classes médias, médias altas e altas têm mais condições de manter o isolamento social do que as mais baixas. As pessoas do primeiro grupo saem menos para trabalhar (em torno de 70%, enquanto nos outros estratos esse número cai para aproximadamente 50%), não usam o transporte público e vivem em situações com menos aglomerações de pessoas.


Questões culturais, comportamentais e de renda parecem ter grande influência na maneira como os bairros vivenciam (ou não) o isolamento social. Nota-se uma dificuldade nos bairros mais pobres em abrir mão de alguns costumes, como se reunir nas calçadas para beber, jogar e conversar, frequentar feiras livres, jogar bola na rua, continuar indo a eventos religiosos, etc.


Não se pode esquecer, no entanto, que para muitas pessoas residentes nesses bairros, essas são as únicas possibilidades de lazer. Ficar dentro de casa também não é a melhor opção quando se tem moradias tão precárias, com muitas pessoas acomodadas em poucos cômodos e quando as unidades habitacionais guardam pouca distância entre si, não têm janelas, quintais e varandas. Dessa forma, os bairros de menor renda parecem mais propícios a esse descumprimento, ao mesmo tempo em que também são os mais atingidos pela necessidade de se deslocar para trabalhar.


Os dados mostram que há grande circulação pelo território da cidade de Fortaleza, em especial para bairros que são polos de oferta de serviços e comércios. Não à toa, apesar de a contaminação da doença ter iniciado pelos bairros mais ricos, já há uma contaminação disseminada pela cidade, com fortes riscos para as periferias, que vêm apresentando índices de mortalidade muito maiores do que a média.


Dentre os respondentes, o perfil dos que estão saindo para trabalhar é destacado entre os com renda mais baixa, de modo que essa parcela da população está se expondo mais ao risco de se contaminar e, tendo em vista a característica de manutenção de alguns tipos de aglomerações nos bairros de origem, também colocando em possibilidade a maior disseminação da doença.


Como o relatório parcial da pesquisa já apontava, havia um sério risco para os bairros de IDH mais baixos, dada a circulação pela cidade em vista das obrigações profissionais e das dificuldades de manter o isolamento social, discutidas nesse boletim. Os números aumentaram de forma avassaladora na periferia, ao mesmo tempo em que foi diminuindo a cada semana as taxas de isolamento social. O resultado disso foi a decisão pelo lockdown na cidade de Fortaleza, a partir de 8 de maio, com maior fiscalização e aplicação de penalidades para o descumprimento. As reflexões possibilitadas pela pesquisa nos instigaram a continuar a investigação, agora de forma mais específica na periferia, atentando para a recepção dos protocolos de prevenção e a confiança nas instituições e nos atores nesse momento.


Este texto é resultado do trabalho conjunto de Danyelle Nilin Gonçalves, Professora do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Ceará e integrante do Laboratório de Estudos em Política, Educação e Cidade (LEPEC); de Irapuan Peixoto Lima Filho, Professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Ceará e membro do LEPEC; de Harlon Romariz Rabelo Santos, Doutorando em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul; e Rafael de Mesquita Ferreira Freitas, Mestre em Antropologia pela Universidade Federal do Ceará.


Referências bibliográficas:

FORTALEZA. Prefeitura Municipal de Fortaleza. Informe Semanal COVID-19. Fortaleza: SMS, 15 de abril de 2020. Disponível em http://coronavirus.fortaleza.ce.gov.br/pdfs/informe-semanal-covid-16a-semana-2020.pdf. Acessado em 15 de abril de 2020.


IPLANFOR. Instituto de Planejamento de Fortaleza. Fortaleza 2040: Iniciando o Diálogo. Fortaleza: Edições IPLANFOR/ Prefeitura Municipal de Fortaleza, N. 2, Ano II, 2015.

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1 Apesar de o termo utilizado para a maioria dos casos ser o de “isolamento” (separação de pessoas e bens contaminados, transportes e bagagens no âmbito intermunicipal, mercadorias e outros, com o objetivo de evitar a contaminação ou a propagação do coronavírus) e não “quarentena” (restrição de atividades ou separação de pessoas suspeitas de contaminação das demais que não estejam doentes), o último termo acaba sendo o mais popular e de mais fácil alcance. Dessa forma, sabendo que iríamos atingir diferentes públicos, optamos por usar “quarentena” no título do questionário e no título da pesquisa.


 

O jogo do vírus e as políticas do estar juntos

Por Carlos Mendonça


Em um momento de reclusão provocado por uma pandemia, somos afetados pelo vírus mesmo sem estarmos contaminados por ele. Não é uma manifestação subjetiva apenas, é um fluxo global que nos atravessa. Um afeto advindo da ameaça pública (MASSUMI, 2010). Afetos são potências capazes de alterar os movimentos dos corpos (SPINOZA, 2007; CLOUCH, 2010; STEWART, 2007). Diante de um vírus altamente letal, para o qual não há vacina, todas as pessoas tornam-se transmissoras da morte. Diante disso, somos obrigados a nos isolarmos. O estar junto se transformou em algo ameaçador. Confinados. Pessoas de todos os lugares socializam, nas plataformas digitais, suas experiências na clausura. Uma descarga de tensões. O que vemos e lemos nas redes sociais são manifestações de medo, de esperança, de insegurança, de buscar formas para reduzir a solidão. Vemos e lemos as emoções – sentimentos manifestos de modo cônscio pelos sujeitos (CLOUGH, 2010). Catálises intersubjetivas, expressões afetivas globais diante do reconhecimento amplo de nossas vulnerabilidades (BUTLER, 2015). A vida em jogo.


Um jogo tem por finalidade o entretenimento e é composto por regras que determinam quem ganha ou quem perde. Distintamente, no jogo da pandemia não é o divertimento que se objetiva. Porém, ao final, vencedores e perdedores já estão estabelecidos. O vírus parece ser um jogador total, que abrange igualmente a todos. Entretanto, a partida é desigual. De um lado há um sujeito parcial, que joga estimulando certo tipo de experiência, de vivência. Mas esta vivência não é um todo. Ele é a experiência de populações dotadas de recursos tecnológicos, econômicos e financeiros que as permitem ficar em casa e expandir para além das paredes a moradia. No outro lado, há os despossuídos desta condição, aquela parcela humana condenada ao sofrimento, à precariedade (BUTLER, 2015) a qual se junta às fatalidades da doença. Na pandemia as experiências permanecem recortadas por condições de classe, de raça, de gênero e sexualidade. As regras do jogo para muitos grupos já estão pré-determinadas. Neste sentido, a pandemia apenas joga o jogo da vida ordinária.


“O vírus não discrimina”, afirmou a filósofa norte-americana Judith Butler (2020, p. 60). Entretanto, avança Butler, a assimetria social e econômica promete as condições de desigualdade ao vírus. Até o momento, grande parte dos mortos pela enfermidade nos EUA são pessoas negras e pobres. No estado de São Paulo, segundo o relatório do Fórum Brasileiro de Segurança Pública2 – publicado em abril deste ano -, aumentou em 44,9% o número de atendimentos da Polícia Militar às mulheres vítimas de violência no ambiente doméstico e em 46,2% os casos de feminicídios, durante a quarentena. Diante de tanta mudança, dentre aquelas coisas que mantêm-se iguais estão as forças do racismo, do patriarcado, do capital e suas capacidades discriminatórias.


(...) todos dão testemunho da rapidez com a que a desigualdade radical, que inclui o nacionalismo, a supremacia branca, a violência contra as mulheres, as pessoas queer e trans, e a exploração capitalista encontram formas de reproduzir e fortalecer seus poderes dentro das zonas pandêmicas. (BUTLER, 2020, p. 60)3


Em um cenário de terra devastada, grandes grupos padecerão por fome, falta de empregos, falta de acesso ao atendimento básico de saúde, falta de condições sanitárias, dentre outras muitas faltas. Outros tornar-se-ão ainda mais ricos. “Que aprendam de uma vez por todas: neoliberais não choram. Eles fazem conta, mesmo quando as pessoas estão a morrer à sua volta” (SAFATLE, 2020). A esta altura nos postamos em frente à pergunta que atravessa a obra de Butler: quais vidas importam?


No mundo da propaganda, o sujeito parcial modifica suas velocidades e intensidades tentando recuperar, ao final, aquilo que era chamado normal. A publicidade do banco anuncia como é curiosa a forma pela qual nos adaptamos ao novo, passamos a viver, consumir e trabalhar. O comercial diz que criar soluções para adaptar-se é estar preparado para viver os tempos vindouros. Depois de tanto louvar o futuro, o vídeo é encerrado com uma promessa de passado: “Quando tudo isso passar, tudo voltará ao normal”. Mas aquele “normal” já não existe mais. “Coronavírus: OMS diz que é preciso alterar o estilo de vida até o fim da pandemia”, dizem as manchetes dos jornais. A pandemia coloca em jogo a economia, a política, a cultura, a ciência, o social, as emoções. O movimento provocado pela pandemia não é local, é global, sentenciam as reportagens.


A pandemia se apresenta como uma agente autônoma (MASSUMI, 1998) a colocar em cena sua ação direta sobre os corpos e suas repercussões sobre a sociedade. No jogo da pandemia os corpos estão submetidos à sensação. “Sensação é o modo em que o potencial está presente no corpo que percebe” (MASSUMI. 1998). Este talvez seja o dado comum: é preciso pertencer. Entretanto, isto deveria ser uma condição comum a todos e não apenas aos donos da bola. No tempo do sequestro de si, sem a previsão de um resgate, é preciso buscar formas de restituir o direito à vida. Precisamos encontrar formas de abertura a outros corpos, encontrar um outro estar junto, uma outra ontologia em uma política em devir – uma emergente consciência de que “pertencer é tornar-se” (MASSUMI. 1998). Estas aberturas permitem composições heterogêneas que são moduladas localmente com repercussões globais. Em um mundo conectado, as repercussões não estão limitadas apenas aos grandes movimentos governamentais. Elas nascem também das micropolíticas, das pequenas habilidades de relacionar-se, de abrir-se ao outro, de deixar afetar-se.


Um devir coletivo atravessa o mundo. Uma mistura de eventos, de corpos, de emoções, de signos na direção de uma mudança efetiva. Não serão apenas as ciências da natureza as responsáveis por dar conta do evento vivido neste ano de 2020. Tampouco, serão os saberes sobre saúde os únicos responsáveis por equacionar os problemas da enfermidade. A grande crise sanitária demonstra nossas interligações diversas. Afecção dissímil sobre os corpos. Por tudo, os afetos trans-humanos do vírus transformam os movimentos e consequentemente as ontologias e as políticas dos corpos.

Boletim45 figura2


Carlos Mendonça é professor associado do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal de Minas Gerais - DCS/UFMG-, professor permanente no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFMG. É um dos líderes de pesquisa do Núcleo de Estudos em Estéticas do Performático e Experiência Comunicacional - NEEPEC.


Referências bibliográficas:


BUTLER, Judith. Quadros de guerra. São Paulo: Editora Civilização Brasileira. 2015.

BUTLER, Judith. El capitalismo tiene sus límites. In: Sopa de Wuhan. Buenos Aires: Editorial ASPO (Aislamiento Social Preventivo y Obligatorio). 2020.

CLOUGH, Patricia. The Affective Turn. In: GREGG, Melissa; SEIGWORTH, Gregory (Org.). The affect theory reader. Durham: Duke University Press, 2010.

FERREIRA, Giorgio Gonçalves. Matéria e movimento em Espinosa: o que pode um corpo e algumas questões para a contemporaneidade. Revista de Filosofia do IFCH da Universidade Estadual de Campinas, v. 2, n. 4, jul/dez. 2018.

MASSUMI, Brian. The Future Birth of the Affective Fact: The Political Ontology of Threat. In: GREGG, Melissa; SEIGWORTH, Gregory (Org.). The affect theory reader. Durham: Duke University Press, 2010.

MASSUMI, Brian. L’économie politique de l’appartenance et la logique de la relation. 1998 Disponível em: https://www.brianmassumi.com/english/essays.html

SAFLATE, Vladimir. A única saída é o impeachment. Disponível em: https://brasil.elpais.com/opiniao/2020-03-20/a-unica-saida-e-o-impeachment.html 

SPINOZA, Baruch de. Ética. Belo Horizonte. Autêntica Editora. 2007.

STEWART, K. Ordinary affects. Durham: Duke University Press Book. 2007.

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1  https://www.ebc.com.br/forum-brasileiro-de-seguranca-publica

 

“(...) todos dan testimonio de la rapidez con la que la desigualdad radical, que incluye el nacionalismo, la supremacía blanca, la violencia contra las mujeres, las personas queer y trans, y la explotación capitalista encuentran formas de reproducir y fortalecer su poderes dentro de las zonas pandémicas.”

 

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Estes textos são parte de uma série de boletins sequenciais sobre o coronavírus e Ciências Sociais que está sendo publicada ao longo das próximas semanas. Trata-se de uma ação conjunta que reúne a Associação Nacional de Pós-Graduação em Ciências Sociais (ANPOCS), a Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS), a Associação Brasileira de Antropologia (ABA), a Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP) e a Associação dos Cientistas Sociais da Religião do Mercosul (ACSRM). Nos canais oficiais dessas associações estamos circulando textos curtos, que apresentam trabalhos que refletiram sobre epidemias. Esse é um esforço para continuar dando visibilidade ao que produzimos e também de afirmar a relevância dessas ciências para o enfrentamento da crise que estamos atravessando.

A publicação deste boletim também conta com o apoio da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC/SC), da Associação Nacional de Pós-Graduação em Geografia (ANPEGE), da Associação Nacional de Pós-Graduação em História (ANPUH), da Associação Nacional de Pós graduação e Pesquisa em Letras e Linguística (Anpoll) e da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional (Anpur).


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