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Boletim Especial n. 60 - 11/06/2020


No boletim n.60, João Teixeira Lopes (FLUP) discute, a partir da situação de pandemia em Portugal, como a população pode ser afetada pelo isolamento social de diferentes maneiras, principalmente diante da ausência de suporte institucional e da possibilidade da emergência de um governo cada vez mais autoritário durante e depois do contexto de Covid-19. E Amanda Domingues (ESCT/Universidade de Cornell) explica que os Estudos Sociais de Ciência e Tecnologia não se posicionam de forma contrária ao progresso científico e à medicina ocidental, mas revelam a importância de se pensar a produção científica como situada no social, assim como produto das relações sociai , questionando a ideia muito difundida de uma ciência neutra e descolada do contexto social.

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A pergunta difícil: permanecemos socialmente vivos?

 

Por João Teixeira Lopes


Este texto aborda a situação da pandemia em Portugal que, neste momento (início de maio), parece controlada, após um período de confinamento severo (há pouco mais de mil mortes e cerca de 27 mil infetados). Para além da crise sanitária, grassa uma crise social e económica, particularmente permeável às desigualdades sociais.


Enquanto sociólogo, não poderia deixar de partilhar convosco algumas preocupações. A primeira prende-se com os riscos de um prolongado período de reclusão, devido a medidas excecionais decretadas pelo Estado. Nestas conjunturas, as atenções são monopolizadas pela exaltação da urgência e largas franjas da nossa sociedade resvalam ainda mais abruptamente para zonas de sombra e de invisibilidade. O risco é sempre desigualmente distribuído, inclusive em alturas de generalização e massificação das ameaças. Não tenho dúvidas: mesmo sendo necessárias, tais medidas vão afetar os mais frágeis, social e economicamente falando. Desde logo, os socialmente vulneráveis (idosos, doentes mentais, presos, população sem abrigo), com poucos laços, isolados e incapazes de mobilizar redes de apoio. Ou as instituições de solidariedade social se adaptam com rapidez, sendo capazes de levar bens, medicamentos, informação e consolo aos mais confinados, ou estes poderão ver a sua saúde física e mental debilitar-se significativamente. Sugiro, aliás, que se reforcem as medidas de monitorização do funcionamento dos lares, pois sabemos como alguns deles funcionam em situações precárias a roçar a ilegalidade. Do mesmo modo, as associações de defesa dos Direitos Humanos devem poder assistir aos presos e as comissões de proteção de crianças e de jovens, para prevenir situações de abuso e de violência. Terão de ativar recursos e forças. As autarquias e serviços de saúde poderão proteger a população sem teto. Repito: em reclusão, o laço social debilita-se e podem multiplicar-se casos de relegação social.


Mas não esqueço, igualmente, os economicamente frágeis: sabemos o montante do salário mínimo (635 euros) e conhecemos o valor do salário médio mensal dos trabalhadores por conta de outrem, que é de 970 euros. Salários reduzidos a 2/3 do rendimento habitual vão causar dificuldades a muitas pessoas, já para não falar dos trabalhadores a recibo verde que somente auferirão 1/3 da média dos últimos meses.


Penso, em segundo lugar, no agravamento das desigualdades de género. Como mostram os estudos sobre os usos do tempo coordenados por Heloísa Perista, do Centro de Estudos para a Intervenção Social, elas, as mulheres portuguesas, sofrem de uma sobrecarga de tarefas domésticas. Ou as relações sociais de género sofrem uma revolução, o que infelizmente não é plausível em tão pouco tempo, ou as mulheres, de novo, vão sofrer mais com a crise. De resto, toda a situação de emergência funcionará como teste aos modos de organização e relação da estrutura familiar.


Gostaria, em terceiro lugar, de salientar o meu repúdio pela expressão tão desenfreada de sentimentos excludentes gerados pelo medo. Em Portugal, como na Europa, repetem-se os apelos para o fecho de fronteiras, esquecendo como é essencial que as mercadorias circulem e que as pessoas doentes possam ser assistidas com dignidade. Ao contrário do pânico irracional, os vírus ignoram os muros.


O clamor por “vozes de comando” e atitudes musculadas é um sinal de como a incerteza pode ser canalizada para o suporte a falsas soluções autoritárias. A Europa, assolada desde há muito pelos espectros dos novos fascismos, agita-se, ululante, por medidas coercivas, estigmatizantes e securitárias. Estará o velho continente à altura para coordenar respostas solidárias, fornecendo segurança social aos cidadãos e cidadãs, colocando na gaveta o dogma do défice e apostando em medidas de investimento público e de apoio social? Mais importante do que a ilusão de segurança de autoridades soberanas, que cavam um fosso entre os que decidem e os súbditos que obedecem, é a aposta em fortalecer os laços sociais. O pior que poderia acontecer era um cenário pós Covid-19 em que as sociedades se oferecessem, sem resistências democráticas, aos arautos do racismo, do eugenismo e da higienização social.


Neste tempo em que a alegria é uma sombra e em que os abraços se suspendem no ar, não podemos renunciar à mais difícil e urgente das perguntas: quando chegar, o vírus vai encontrar-nos ainda socialmente vivos?


João Teixeira Lopes é sociólogo e professor catedrático da FLUP.

 


Essas são as perguntas certas? Vírus, doenças e seus contexto sociais

 

Por Amanda Domingues

 

Enquanto lia as notícias e publicações no meu feed de notícias do Facebook há algumas semanas, me deparei com uma antiga colega de classe da faculdade que se perguntava o que os antropólogos que criticam a ciência moderna estavam falando sobre o Coronavírus e sobre as possibilidades que esta mesma ciência estava criando para curas. Sua pergunta – e a crítica contida nela – se baseava principalmente em uma leitura desses antropólogos que vê a ciência moderna em conflito com outras formas de práticas de cuidados com a saúde, sejam elas formas institucionalizadas de práticas medicinais (como a acupuntura) ou formas que são entendidas pelo ocidente como magia e ritual.


Estes tipos de dilema – o mesmo que minha colega se deparou recentemente – são situações que frequentemente encontro como pesquisadora na área de Estudos Sociais da Ciência e Tecnologia (ESCT), um campo ainda pouco conhecido no Brasil. Fundado inicialmente como uma junção da Sociologia e Antropologia da Ciência e da História da Ciência, hoje, o campo é independente e vem crescendo no Brasil1. Acredito que muitos dos autores que vêm contribuindo para esse canal também se consideram pesquisadores da área. No entanto, ainda há muita confusão, mesmo por parte de outros cientistas sociais, a respeito dos argumentos que apresentamos sobre a ciência moderna. E muitos dentre esses cientistas sociais ainda veem nossa crítica à ciência como uma crítica ao “progresso” e à “modernidade”. Afinal, se a ciência está salvando tantas vidas, quem poderia ser contra ela? E é exatamente esse tipo de posição que nós, pesquisadores de ESCT não temos e não reivindicamos. O nosso trabalho não é criticar a iniciativa de instituições de pesquisa em investir na cura para o coronavírus ou, como esta minha colega pensa, reificar curas alternativas em detrimento dos usos da medicina ocidental. Nosso trabalho é abrir os olhos para as premissas e suposições que estão nas entrelinhas de projetos científicos e artigos acadêmicos. É revelar a narrativa por trás das leis naturais da biologia e da física, mostrando como o encontro do espermatozóide e do óvulo também pode ser lido como uma estória, um discurso (para saber mais sobre esta estória sugiro a leitura de Martin, 19912). E até mesmo a forma como pensamos vírus e bactérias (como uma guerra contra o inimigo) revela mais sobre nossa obsessão com fronteiras e propriedade do que sobre germes. O artigo de Napier3 explica melhor essa ideia.


E em meio a uma pandemia, quando a ciência é venerada como instituição provedora do conhecimento salvador da humanidade, nós nos perguntamos qual humanidade estamos salvando. Ser um pesquisador de ESCT não é de forma alguma ser apoiador do movimento antivacina ou da redução de investimentos em ciência e tecnologia (C&T) como acontece hoje no Brasil4 . Nós, na verdade, somos os que mais defendemos o investimento em C&T e sua popularização e a inclusão social que tecnologias sociais promovem. Mas as perguntas que as ciências (incluindo as sociais) se fazem às vezes estão erradas. O que os nossos “objetos de pesquisa” responderiam se lhes perguntássemos as perguntas certas5? A questão não é chegar à verdade sobre qual visão de mundo salva mais vidas: a ocidental, a oriental, a indígena ou a tradicional. Isso porque a própria forma como vivemos hoje – e que foi fundamental para a proliferação do vírus – é inseparável da ciência que produzimos. As perguntas nas quais deveríamos nos concentrar são: que tipo de humanidade estamos salvando? Quais os impactos de nossos métodos científicos para esta humanidade? Em um dos seus clássicos artigos6, Susan Craddok – que estuda como doenças são vivenciadas pela sociedade – diz: “entender [somente] epidemiologia e patologia refina o escopo [de nossa] percepção, mas não priva uma doença de seu contexto social.” Minha resposta para minha colega tinha isso em mente. Notícias de pesquisadores colaborando para desenvolver uma vacina que salvará muitas vidas é tudo que queremos agora. Também queremos ver a ciência brasileira mostrando sua capacidade, como a pesquisa realizada pelos pesquisadores de Manaus a respeito dos efeitos da cloroquina7. Porém, esse conhecimento, essa tecnologia não são produtos isolados. Com eles, vem o contexto social que é tão familiar ao cientista social, mas que é muitas vezes negligenciado pelo biólogo, pelo médico ou patologista. E a justificativa que estes oferecem para o desinteresse em explorar o contexto social está baseado na premissa de que estes contextos estão no domínio das humanidades e portanto, separados da ciência que é neutra. E muitas vezes o próprio cientista social se deixa negligenciar por não entender de reações moleculares, isótopos ou genômica.


Se este artigo se revela mais como um desabafo e um apelo do que um argumento, isso não é coincidência. Os Estudos Sociais da C&T precisam crescer no Brasil e isso deve começar por um reconhecimento, nas ciências sociais, da importância do estudo de C&T. A iniciativa deste boletim e, mais especificamente, o grande número de artigos aqui publicados já revela uma demanda pela produção e consumo de conhecimento sobre ciência, tecnologia e sociedade. O encontro da ANPOCS também tem um GT dedicado ao tema8. Temos que estimular discussões que lidem com ciência e sociedade juntos; não como faces da mesma moeda pois, como reflexo uma da outra e em lados distintos, estas faces nunca se encontram; mas que pensem ciência como um produto social e ao mesmo tempo sua matéria prima; ciência e sociedade como co-construções9: a ideia de que ciência e tecnologia se desenvolvem conjuntamente com representações, identidades, discursos e instituições.


Amanda Domingues é doutoranda no programa de Estudos Sociais da Ciência e Tecnologia da Universidade Cornell e co-editora da seção Sul Global do blog Backchannels da Society for the Social Studies of Science (4S).

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Estes textos são parte de uma série de boletins sequenciais sobre o coronavírus e Ciências Sociais que está sendo publicada ao longo das próximas semanas. Trata-se de uma ação conjunta que reúne a Associação Nacional de Pós-Graduação em Ciências Sociais (ANPOCS), a Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS), a Associação Brasileira de Antropologia (ABA), a Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP) e a Associação dos Cientistas Sociais da Religião do Mercosul (ACSRM). Nos canais oficiais dessas associações estamos circulando textos curtos, que apresentam trabalhos que refletiram sobre epidemias. Esse é um esforço para continuar dando visibilidade ao que produzimos e também de afirmar a relevância dessas ciências para o enfrentamento da crise que estamos atravessando.

A publicação deste boletim também conta com o apoio da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC/SC), da Associação Nacional de Pós-Graduação em Geografia (ANPEGE), da Associação Nacional de Pós-Graduação em História (ANPUH), da Associação Nacional de Pós graduação e Pesquisa em Letras e Linguística (Anpoll) e da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional (Anpur).

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