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Boletim Especial n. 61 - 12/06/2020


No Boletim n.61, Gabriel Caetano (IRI/PUC-RIO) nos fala sobre a utilização, por parte de políticos ao redor do mundo, da ideia de guerra para se referir ao enfrentamento da COVID-19, chamando atenção, assim, para os perigos políticos e sociais colocados pelo uso dessa retórica. Helena Fietz, Anahí Guedes de Mello e Claudia Fonseca (GEAD/UFRGS) questionam a universalidade implícita nas diretrizes governamentais de combate à Covid-19 que ignoram as  experiências de grupos sociais específicos, a partir do relato de pessoas com corporalidades singulares, iluminando os debates sobre cuidado e interdependências sociais que tornam possível a existência humana.

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Não estamos em Guerra! A retórica belicista no enfrentamento ao COVID-19


Por Gabriel Fernandes Caetano

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Fonte: Nathalie Lees – The Guardian1

 

Com o aumento exponencial dos casos de COVID-19 pelo mundo, vários líderes têm comparado a pandemia a uma guerra. Em pronunciamento à Nação francesa, Emmanuel Macron adotou um discurso extremamente belicista: “Estamos em guerra... o inimigo está lá - invisível, ilusório - e está avançando”2. Donald Trump, ao invocar o Defense Production Act declarou-se um “presidente em tempos de guerra”3. Para o presidente da China, Xi Jinping, o país estaria passando por uma “guerra popular”4 pelo controle e prevenção da epidemia. Nas palavras de Boris Johnson, “esse inimigo pode ser mortal, mas também é derrotável”5. Narendra Modi afirmou que médicos e enfermeiros indianos são “guerreiros Corona” que defendem a Nação6. Já o Primeiro-ministro Viktor Orbán declarou que a Hungria estaria travando uma “guerra em duas frentes”: contra a migração e agora contra o COVID-197. Por que, afinal, líderes mundiais estão adotando retórica de guerra diante da pandemia ocasionada pelo COVID-19?


O tom marcial invocado por tomadores de decisão é politicamente eficaz, mas socialmente perigoso. A utilização da linguagem militarista no enfrentamento ao COVID-19 é potencialmente persuasiva e possibilita distrair a opinião pública diante de uma resposta global descoordenada e ineficaz. Além disso, a analogia da guerra que atravessa os discursos mundo afora é perturbadora e transmite medo, ansiedade e incerteza sobre o futuro8. Diante dessa sensação de insegurança, é possível que as pessoas se tornem mais tolerantes às estratégias de exceção que subvertem a normalidade política, levando à suspensão das normas que regulam as relações sociais em tempos pacíficos.


Historicamente a palavra “guerra” é ativada como principal tropo de estratégias securitizantes. Exemplos não faltam: a bem-intencionada Guerra à Pobreza iniciada por Lyndon Johnson foi rapidamente subvertida, e nos governos Reagan e Clinton tornou-se uma guerra contra o bem-estar social9; a Guerra às drogas de Richard Nixon deu início a um conjunto de práticas sanitaristas, xenofóbicas e racistas10; a Guerra ao Terror, lançada por George W. Bush, redefiniu as linhas da política internacional a partir de um paradigma civilizacional em que bárbaros estariam ameaçando os valores e o modo de vida ocidental11. Agora, estamos novamente sendo informados por meio da linguagem militar. Na maior crise sanitária dos últimos 100 anos, estamos aprendendo mais sobre a pedagogia da guerra do que sobre os motivos que levaram ao fracasso da saúde pública global. Essa situação, além de inverter a realidade, nos coloca diante de novos desafios e novas dinâmicas de relacionamento.


A linguagem de guerra é divisível e nos obriga a escolher um lado. Essa escolha vai do local ao global, afeta nossa rotina diária e nossa percepção sobre a política internacional. No primeiro caso, podemos estar do lado daqueles que se voluntariam para oferecer comida aos idosos e pessoas em condições de vulnerabilidade, ou podemos nos juntar às hordas que invadem supermercados para estocar alimentos. Ambos os lados temem a fome e o racionamento, comuns em tempos de guerra. Geopoliticamente, podemos escolher qual discurso vamos ecoar. Na frente ocidental, os críticos acusam a China de montar um sofisticado esquema de controle social e supressão de direitos para mostrar como o modelo de governança centralizada do Partido Comunista Chinês é mais eficiente que os modelos democráticos menos organizados12. Na frente oriental, a China tem aumentado sua influência global, sobretudo após a suspensão do financiamento dos EUA à OMS. Enquanto Trump rompeu 70 anos de consenso bipartidário com relação à ONU, equipamentos e médicos chineses desembarcam na Itália, na França e em outros países do Oriente Médio13. A guerra divide e nos obriga a encontrar razões que nem sempre são coerentes para apoiar um lado ou outro.


Retórica e metáfora circulam e adquirem significados distintos em meio à atual crise sanitária. A retórica, como definiu James B. Herrick, “é o estudo sistemático e a prática intencional de expressões simbólicas eficazes"14. Por outro lado, a metáfora exerce uma função comparativa, frequentemente empregada para simplificar questões complexas ou abstratas15. Por exemplo, quando profissionais da saúde, como no caso do Amazonas, relatam que lidar com o COVID-19 é “como ir para a guerra sem nenhuma arma”, a metáfora tem como objetivo expor uma situação precária em que faltam equipamentos de proteção individual (EPI’s), Álcool 70, maca, respiradores, máscara e testes16.


Por outro lado, a retórica da guerra emerge como uma construção discursiva perigosa. Narrativas dramáticas, carregadas de apelo emocional, buscam construir uma realidade de guerra que autorize medidas de exceção para combater uma ameaça existencial. Na Hungria, o Covid-19 foi a excusa perfeita para que o ultradireitista Viktor Orbán pudesse obter poderes irrestritos para governar via decreto17. Agora, os históricos ataques de Orbán à imprensa húngara podem fazer com que o vírus circule mais rápido que a própria informação18. Para combater o “inimigo”, várias lideranças políticas estão adotando um populismo punitivo que reprime violentamente as camadas mais vulneráveis da sociedade. Em Nairóbi, capital do Quênia, um garoto de 13 anos foi baleado e morto enquanto a polícia fazia cumprir o toque de recolher19. Nas Filipinas, Rodrigo Duterte ordenou que seus soldados “atirem para matar” contra aquelas pessoas que violarem a quarentena20. A retórica da guerra contra um inimigo invisível está servindo aos interesses de figuras populistas e autoritárias que inflamam e dividem a opinião pública.


A linguagem de guerra exige a identificação de um inimigo, mas sendo o vírus abstrato demais, são as pessoas infectadas que se tornam ameaças à sociedade. Em clara manifestação racista, Trump e seus adeptos passaram a chamar o COVID-19 de “vírus chinês”. Para alguns comentaristas, essa é uma estratégia do partido republicano para melhorar suas chances na corrida pela Casa Branca em novembro21. Contudo, a retórica xenofóbica de Trump fez com que aumentassem os crimes de ódio contra asiáticos-americanos como alertou o FBI22. Na Índia, trabalhadores migrantes foram submetidos a uma pulverização forçada para que pudessem entrar em sua província natal23. Em Punjab, a polícia impõe castigos humilhantes a quem violar o isolamento social. Vídeos mostram pessoas forçadas a fazer agachamento enquanto cantam “Somos inimigos da sociedade”24. Na província de Quezon, nas Filipinas, um motorista de ambulância foi baleado após estacionar em uma área residencial. O morador responsável pelo disparo acusou o motorista de estar transportando pessoas infectadas pelo COVID-19, o que colocaria em risco a vida das pessoas da comunidade25.


Diante de tais arbitrariedades, devemos lembrar que isso não é uma guerra! O COVID-19 não é nosso inimigo. Estamos falando de um agente parasitário como muitos outros. Nós, humanos, não somos a única forma de vida a habitar o planeta. Essa é apenas a nossa ilusão antropocêntrica de que temos a capacidade de controlar a natureza. O pavor causado por essa pandemia não está somente no número de mortos, mas sim no fato de que o COVID-19 está revelando as profundas rachaduras do nosso sistema político, econômico e social. O mundo que habitávamos meses atrás não existe mais e agora nos resta renascer. Não é possível voltar ao normal, porque esse retorno seria a insistência naquilo que há décadas vem dando errado. Não há mais volta, daqui para a frente é tudo novo e incerto.


Gabriel Fernandes Caetano é doutorando pelo Instituto de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (IRI/PUC-RIO) e membro da Rede de Pesquisa em Paz, Conflitos e Estudos Críticos de Segurança (PCECS).

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1 https://www.theguardian.com/commentisfree/2020/mar/18/boris-johnson-covid-19-response

2 https://www.theatlantic.com/international/archive/2020/03/france-paris-emmanuel-macron-coronavirus-covid19/608200/

3 https://www.whitehouse.gov/briefings-statements/remarks-president-trump-vice-president-pence-members-coronavirus-task-force-press-briefing-5/

4 https://www.voanews.com/science-health/coronavirus-outbreak/chinas-xi-declares-peoples-war-coronavirus

5 https://www.theguardian.com/world/2020/mar/17/enemy-deadly-boris-johnson-invokes-wartime-language-coronavirus

6 https://www.narendramodi.in/text-of-pm-s-address-to-the-nation-549264

7 https://www.france24.com/en/20200313-hungary-s-pm-orban-blames-foreign-students-migration-for-coronavirus-spread

8 https://www.indiaspend.com/use-of-war-metaphors-for-covid-divides-people-spreads-fear/

9 Kornbluh, Felicia; Mink, Gwendolyn. Ensuring Poverty: Welfare Reform in Feminist Perspective. University of Pennsylvania Press, 2018.

10 Lusane, Clarence; Desmond, Dennis. Pipe dream blues: Racism and the war on drugs. South End Press, 1991.

11 Dimaggio, Anthony R. Selling war, selling hope: Presidential rhetoric, the news media, and US foreign policy since 9/11. Suny Press, 2015. Veja também Abrahamian, Ervand. The US media, Huntington and September 11. Third world quarterly, v. 24, n. 3, p. 529-544, 2003.

12 https://foreignpolicy.com/2020/03/19/china-us-eu-coronavirus-great-power-competition/

13 https://www.independent.co.uk/voices/trump-china-coronavirus-election-biden-a9471106.html

14 Herrick, James A. The history and theory of rhetoric: An introduction. Routledge, 2017.

15 Flusberg, Stephen J.; Matlock, Teenie; Thibodeau, Paul H. War metaphors in public discourse. Metaphor and Symbol, v. 33, n. 1, p. 1-18, 2018.

16 https://www.bbc.com/portuguese/brasil-52317263

17 https://www.dw.com/en/hungary-passes-law-allowing-viktor-orban-to-rule-by-decree/a-52956243

18 https://www.theguardian.com/world/2020/apr/03/hungarian-journalists-fear-coronavirus-law-may-be-used-to-jail-them

19 https://abcnews.go.com/International/wireStory/13-year-shot-dead-kenyan-police-enforcing-curfew-69895736

20 https://www.amnesty.org/en/latest/news/2020/04/philippines-president-duterte-shoot-to-kill-order-pandemic/

21 https://www.nytimes.com/2020/04/18/us/politics/trump-china-virus.html

22 https://abcnews.go.com/US/fbi-warns-potential-surge-hate-crimes-asian-americans/story?id=69831920

23 https://indianexpress.com/article/explained/coronavirus-india-lockdown-what-is-being-sprayed-on-migrants-is-it-safe-6339277/

24 https://www.ndtv.com/india-news/coronavirus-lockdown-india-squats-rolls-lathis-cops-enforce-social-distancing-amid-coronavirus-lockd-2200469

25 https://www.ispionline.it/en/pubblicazione/covid-19-and-discrimination-medical-personnel-philippines-25725

 


 

Conexões íntimas e corporalidades singulares:
deficiência em tempos de pandemia da Covid-19


Por Helena Fietz, Anahí Guedes de Mello e Claudia Fonseca

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Fonte: Sins Invalid26


#ParaTodosVerem: ilustração de uma pessoa de cabelos curtos com pele de tonalidade entre azul e verde, vestindo uma camiseta rosa e uma saia longa rosa, sentada em uma cadeira de rodas verde e laranja. O texto na imagem diz: "Justiça significa uma resposta à Covid-19 centrada na deficiência".


Desde o começo da pandemia de Covid-19, foram muitas as discussões sobre quais medidas seriam adotadas por governos e populações a fim de conter a sua disseminação. No Brasil, conforme orientações da Organização Mundial de Saúde (OMS), grande parte dos estados e municípios adotaram medidas de isolamento e distanciamento social que requerem que fiquemos em casa junto aos membros do núcleo familiar, saindo somente quando for extremamente necessário. Essas políticas de prevenção e cuidado, direcionadas à “população em geral” são importantes; entretanto, falar de práticas de cuidado a partir de uma ética feminista (Puig de la Bellacasa, 2017) significa relativizar as respostas prontas e normativas pré-estabelecidas baseadas em preceitos universais, compreendendo que é necessário estarmos atentas à singularidade de cada situação. As perguntas que se impõem são: como essas diretrizes “universais” de combate ao novo coronavírus afetam os grupos sociais específicos? E, o que nos interessa em particular, como afetam as pessoas com deficiência que fazem parte do chamado “grupo de risco”?


Muitas pessoas com deficiência passam a vida inteira prevenindo-se contra a contaminação viral e/ou bacteriana, que podem ser fatais dependendo de suas comorbidades. Logo, alguns gestos praticados a fim de diminuir o risco de contágio – lavar sempre as mãos, usar máscaras, higienizar bem e insistentemente os espaços, próteses, órteses e outras tecnologias assistivas, como cadeiras de rodas, andadores, muletas, bengalas etc. – já faziam parte de seu cotidiano muito antes da pandemia. O que muda com a Covid-19 é que a rotina de cuidados se intensifica ante os novos riscos. Além disso, essas práticas passam a ganhar visibilidade à medida que corpos não deficientes também precisam realizá-las e com isso deixam de ser pensadas enquanto responsabilidade individual para adentrar a saúde coletiva.


Por outro lado, para as pessoas com deficiência obrigadas a constantemente usar o tato para adquirir informações e se locomover no mundo ao seu redor, é praticamente impossível seguir as recomendações universais à risca. A política preconizada de distanciamento diante de objetos possivelmente infectados requer de cada indivíduo a invenção de novas técnicas corporais. Por exemplo, Marina, mulher com paralisia cerebral, conta como um simples passeio pode provocar angústias redobradas:


“Não uso tecnologia assistiva. Mas quando saio para ir ao mercado, por exemplo, morro de medo de tropeçar, me apoiar demais nas coisas ou cair. Faço minhas atividades todas em câmera - ainda mais - lenta e cheia dos receios de que algo acontecesse, e claro, cuidando para não detonar o psicológico por isso...” (Marina)


Para além das tecnologias assistivas e as novas tecnologias corporais, o maior desafio permanece sendo a articulação de uma rede de apoio. As teorias do cuidado sublinham a maneira como somos todos interconectados, de como a sensação de autonomia pode ser uma ilusão que permite ignorar a série de atores envolvidos nas redes infraestruturais que sustentam nossa existência. Justamente por ameaçar cortar essas redes, a política de distanciamento social nos obriga a tomar consciência do quanto dependemos de outros, sendo essa percepção muito mais aguda nas pessoas com deficiência.


Para aquelas que dependem de alguém para realizar os mínimos gestos da vida íntima - comer, se vestir, tomar banho -, a proximidade física implicada nessas relações de cuidado complica seriamente essas normativas. Por conseguinte, o trabalho normalmente invisibilizado de uma rede densa de apoio - incluindo membros da comunidade, familiares, profissionais e serviços públicos -, sai da sombra para se tornar uma ameaça de contágio, exacerbada pelas condições precárias em que vive boa parte da população brasileira.


Talvez um dos maiores desafios para as políticas de distanciamento social seja forjar estratégias para se adequar às condições de moradia nas vilas irregulares e ocupações sociais onde não raro encontramos famílias grandes, de três gerações ou mais, morando em alguns metros quadrados. Citamos o exemplo de Lisa, menina de seis anos de idade, nascida com uma grave deficiência neurológica e que vive acamada numa barraca de três peças com, além de seus pais, cinco irmãos. Nunca aprendeu a falar e só no ano passado, com cinco anos, conseguiu existir sem ser entubada a um respirador artificial. Antes da Covid-19, contava com visitas regulares e fisioterapia organizadas através do posto de saúde local. Agora, diante das progressivas restrições dos serviços, passou a depender dos cuidados quase exclusivos de sua família – o que implica num rodízio de cuidadores mais ou menos engajados, incluindo pessoas que, desde a perda de renda provocada por essas políticas, são obrigadas a sair diariamente sem nenhuma proteção especial, à procura de maneiras para sustentar a família.


Embrenhado numa rede de interdependências que exige uma proximidade dos corpos, o cuidado da Lisa apresenta desafios particulares. Seu exemplo sublinha a necessidade de qualquer política de isolamento social se ajustar à particularidade desses corpos, prevendo maneiras para, ao mesmo tempo, prevenir a doença e garantir a continuidade da rede de cuidados.


Outro ponto importante e pouco abordado pelas coberturas midiáticas é a situação das residências coletivas para pessoas com deficiência. A experiência de países cujo ciclo do contágio está mais avançado demonstra que a vulnerabilidade de pessoas vivendo em asilos e residências inclusivas é estarrecedora. Segundo recente notícia27, os moradores de residências para pessoas com deficiência e outras instalações similares em Nova Iorque e arredores têm 5,34 e 4,86 vezes mais chances de, respectivamente, desenvolver a Covid-19 e morrer desse vírus que a população geral. Uma probabilidade que, mesmo representando o modo como algumas populações são “deixadas para morrer”28, é por muitos compreendida como algo inevitável. Não por acaso, o pai de um jovem com deficiência cognitiva ao saber da morte de um colega de moradia do filho exclamou: “se é o vírus, o que diabos vamos fazer?”. Porém, devemos perguntar se é a virulência da doença nessa “população de risco” que condena tantos residentes e funcionários a uma taxa alta de mortalidade ou se a responsabilidade não cai sobre as precaríssimas condições nessas moradias.


Num primeiro momento, diversos países europeus computavam a taxa de mortalidade causada pela Covid-19 apenas a partir de pacientes que faleceram em hospitais, simplesmente ignorando as mortes em asilos. Isso é preocupante, especialmente no contexto brasileiro, em que temos poucas informações sobre locais como instituições lotadas, escassez de profissionais, cuidadores sem formação especializada trabalhando com parcos recursos e sem materiais de proteção como luvas, máscaras, álcool em gel e com alguns funcionários usando touca de cabelo para cobrir a boca e o nariz29.


Voltamos, afinal, para as tantas práticas de cuidado que, embora mais do que nunca essenciais em época de pandemia, são comumente invisibilizadas nas políticas públicas. As recomendações da OMS são centrais para a proteção da vida de todos, especialmente dos mais vulneráveis. Como aponta a relatora da Organização das Nações Unidas (ONU) para as questões da deficiência, Catalina Devandas, em meio à Covid-19 as pessoas com deficiência merecem a segurança de saber que sua sobrevivência é uma prioridade30. No entanto, para que as políticas gerais sejam de fato efetivas, devem dar conta das singularidades de certas corporalidades e dos contextos sociais e culturais em que ocorrem. Certas experiências não podem ser excluídas a priori das políticas de saúde global que deveriam protegê-las. Pensar com o cuidado pressupõe olhar para esses contextos que incluem muitas pessoas e famílias cujas condições de vida não se adequam facilmente ao distanciamento social. A Covid-19, diante de tantas perguntas em aberto e desfechos imprevisíveis, nos obriga a viver numa situação de constante tensão em que mais do que nunca cabe uma reflexão acirrada sobre as intrincadas práticas de cuidado.


Helena Fietz é doutoranda em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e membro do Grupo de Estudos Antropologia e Deficiência (GEAD/UFRGS).


Anahí Guedes de Mello é doutora em Antropologia Social pela Universidade Federal de Santa Catarina, pesquisadora associada da Anis – Instituto de Bioética e membro do Grupo de Estudos Antropologia e Deficiência (GEAD/UFRGS).


Claudia Fonseca é doutora em Antropologia, professora do Programa de Pós-graduação em Antropologia Social da UFRGS e membro do Grupo de Estudos Antropologia e Deficiência (GEAD/UFRGS).

 

Agradecemos a colegas do Grupo de Estudos Antropologia e Deficiência do PPGAS/UFRGS pelas discussões e debates sobre o texto.


Referência

PUIG DE LA BELLA CASA, Maria. Matters of Care: Speculative Ethics in More than Human Worlds. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2017.

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26  Arte de Rafi Darrow, disponível em: <https://www.sinsinvalid.org/news-1/2020/3/19/social-distancing-and-crip-survival-a-disability-centered-response-to-covid-19>. Acesso em: 04 mai. 2020. 

27  New York Times, 17 abril, 2020. Disponível em: <https://www.nytimes.com/2020/04/08/nyregion/coronavirus-disabilities-group-homes.html>. Acesso em: 29 abr. 2020.

28  Ver, por exemplo, artigo de Patrice Schuch e Mário Eugênio Saretta em <http://www.anpocs.com/index.php/ciencias-sociais/destaques/2349-boletim-n-35-cientistas-sociais-e-o-coronavirus>. Acesso em: 09 mai. 2020.

29  El País, 12 abril, 2020. Disponível em: <http://a.msn.com/01/pt-br/BB12whxD?ocid=sw>. Acesso em: 02 mai. 2020.

30  Ver em <https://reliefweb.int/report/world/covid-19-who-protecting-people-disabilities-un-rights-expert>. Acesso em: 02 mai. 2020.

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Estes textos são parte de uma série de boletins sequenciais sobre o coronavírus e Ciências Sociais que está sendo publicada ao longo das próximas semanas. Trata-se de uma ação conjunta que reúne a Associação Nacional de Pós-Graduação em Ciências Sociais (ANPOCS), a Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS), a Associação Brasileira de Antropologia (ABA), a Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP) e a Associação dos Cientistas Sociais da Religião do Mercosul (ACSRM). Nos canais oficiais dessas associações estamos circulando textos curtos, que apresentam trabalhos que refletiram sobre epidemias. Esse é um esforço para continuar dando visibilidade ao que produzimos e também de afirmar a relevância dessas ciências para o enfrentamento da crise que estamos atravessando.

A publicação deste boletim também conta com o apoio da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC/SC), da Associação Nacional de Pós-Graduação em Geografia (ANPEGE), da Associação Nacional de Pós-Graduação em História (ANPUH), da Associação Nacional de Pós graduação e Pesquisa em Letras e Linguística (Anpoll) e da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional (Anpur).

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