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Boletim Especial n. 74 - 01/07/2020


No boletim n.74, João Bittencourt (UFAL) e Alexandre Pereira (UNIFESP) apontam como as medidas de isolamento social devido à pandemia podem repercutir de maneiras distintas nos jovens, a depender de suas condições econômicas, mas que, apesar da necessidade de estudos mais aprofundados, para alguns o momento se mostra de reflexão e de percepção das desigualdades que os rodeiam. Enquanto isso, Alline de Assis Xavier Maia (UERJ), a partir de uma netnografia digital realizada em um grupo de facebook, nota que uma comunidade de jovens evangélicos neopentecostais, do Rio de Janeiro, não demonizam a ciência e o saber científico, mas sim os submetem à religião, o que demonstra, ainda, a presença de um certo respeito a esse saber por parte deles.

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Isolamento e distanciamento social: o impacto do coronavírus na vida dos jovens brasileiros

Por João Batista de Menezes Bittencourt e Alexandre Barbosa Pereira

 

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Diário de Pernambuco: Jovens da Periferia de Recife buscam Marco Zero para banho de Rio no período do isolamento social. Foto: Leandro de Santana.


“Tem outras coisas rolando ainda. A dengue ainda existe? A bala perdida contra o pobre da periferia é real? Não se morre só de corona. Até o uso da máscara é questionável, se colocada da maneira incorreta. Agora me diz como vou ficar em casa? É fácil para um playboy que tem sua mesada, ficar em casa com seu videogame, sua piscina. Eu tenho de dividir uma televisão com cinco irmãos” Gessé Martins, 24 (SOUZA, Cleber; ADORNO, Luís, UOL, 14/05/2020).


Esse depoimento, extraído de matéria publicada no portal Uol, apresenta uma incursão por bairros periféricos da cidade de São Paulo, descrevendo a presença de jovens na rua, a praticar esportes, namorar e participar de bailes funk. Há alguns dias, outro evento chamou a atenção da mídia, uma digital influencer de 34 anos voltada à cultura fitness, após recuperar-se de infecção pela COVID-19, promoveu uma festa e ainda zombou da situação com a divulgação de um vídeo em redes sociais, em que diz: “foda-se a vida!”.


Há, nessas duas situações, exemplos da complexidade do que é pensar os impactos do coronavírus na vida dos jovens brasileiros. Primeiro, a constatação de uma profunda desigualdade de condições. A influencer vive em uma casa de 350 m² e a principal consequência de sua irresponsabilidade será a perda de alguns contratos milionários. Já Gessé, de 24 anos, leva-nos a questionar se a sua presença na rua é só o resultado de uma suposta irresponsabilidade juvenil. Aliás, esse é o segundo ponto, aos 34 anos, a influencer ainda pode valer-se do privilégio de realizar determinados atos de “rebeldia”. Ou seja, tem sua condição juvenil estendida sem que isso lhe cause maiores danos. Já jovens da periferia, como o próprio Gessé relata, podem não apenas, a qualquer momento, ser vítimas da violência urbana, como, provavelmente, muitos perderão precocemente o direito de usufruir de sua condição juvenil.


}O mundo encara uma crise de saúde pública sem precedentes. Em poucos meses, populações nas diferentes partes do mundo tiveram suas rotinas completamente alteradas em decorrência das políticas de isolamento e distanciamento social estabelecidas para diminuir o contágio pela COVID-19, algumas mais leves, outras mais duras, a depender da gravidade da situação. Sabemos que as experiências dos agentes variam a partir das diferentes condições e situações vivenciadas por estes. Desse modo, seria um equívoco afirmar que todos os grupos humanos estão socialmente e psiquicamente sendo impactados pelos mesmos problemas e da mesma forma. A partir dessa afirmação e na condição de pesquisadores das práticas juvenis, resolvemos indagar: Como os jovens brasileiros estão lidando com o fato de que precisam ficar em casa e evitar o contato com os pares?


É fundamental entendermos como os agentes vivenciam essa experiência a partir dos seus diferentes pertencimentos: classe, raça, gênero, territorialidade, dentre outros. Porém, o fato de nos atermos às particularidades das variadas experiências dos agentes não elimina a possibilidade sociológica de pensarmos a juventude a partir de “certos universais”. Isso é o que defendem, por exemplo, Margulis e Urresti (1996), quando relacionam o investimento dos jovens em situações de risco com o fato destes se perceberem distantes da morte, ou seja, haveria algumas "respostas sociais" dadas pelos jovens que se produziriam a partir de uma condição existencial compartilhada. Por outro lado, a antropóloga Regina Novaes (2007) sugere que a juventude é como “um espelho retrovisor" que reflete e revela desigualdades e diferenças sociais. Diríamos que, além de refletir e revelar desigualdades e diferenças, ela também funciona como uma espécie de termômetro da vida social que expressa de maneira acentuada os graus de satisfação e insatisfação decorrentes de mudanças bruscas; ela sintomatiza o tempo presente como nenhum outro segmento.


Nas últimas semanas, têm circulado matérias na mídia impressa e televisiva sobre o impacto da pandemia na saúde mental dos jovens, decorrente de fatores como perda de rotina, fechamento de escolas e cancelamento de atividades de lazer. Podemos afirmar que, em maior ou menor grau, todos estão sendo impactados emocionalmente pelas medidas de distanciamento social.


A matéria publicada no jornal El País (Brasil), no dia 12 de maio de 2020, intitulada “Jovens têm choque de consciência sobre privilégios e injustiças do Brasil durante a pandemia” é um bom exemplo de que, mesmo em contexto de distanciamento social, as angústias e ansiedades são experiências comuns. A partir dos relatos de quatro jovens de distintas classes sociais, é possível perceber o impacto da pandemia sobre seus projetos de vida, bem como as distintas preocupações com a situação. Enquanto os jovens das classes populares discorrem sobre as dificuldades da implementação do ensino a distância e sobre o temor de realizar o ENEM em condições adversas, jovens das camadas economicamente privilegiadas falam sobre a angústia de ter de ficar em casa e não poder encontrar os amigos.


O ponto chave da matéria é demonstrar que, apesar das diferenças vivenciadas, há uma maior conscientização por parte dos jovens sobre as desigualdades decorrentes da presença e ausência de certos privilégios. Acreditamos que ainda não é possível fazer afirmação tão categórica, pois seria preciso uma pesquisa com uma amostragem mais consistente. De todo modo, é inegável que ao menos uma parte dos jovens brasileiros está refletindo sobre sua condição e traçando estratégias para lidar com um problema inédito em suas vidas e cabe a nós, cientistas sociais, buscarmos as ferramentas adequadas para a interpretação desse fenômeno no cotidiano dessa população.


João Batista de Menezes Bittencourt é Doutor em Ciências Sociais, professor dos Programas de Pós Graduação em Sociologia e Antropologia Social da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), líder do Grupo de pesquisa LABJUVE/UFAL e membro fundador da REAJ - Rede de estudos e pesquisas sobre experiências e ações juvenis.


Alexandre Barbosa Pereira é Doutor em Antropologia Social, professor do Programa de Pós Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), e membro fundador da REAJ - Rede de estudos e pesquisas sobre experiências e ações juvenis.


Referências bibliográficas:

MARGULIS, M; URRESTI, M. La juventude és mas que una palabra. Buenos Aires: Biblos, 1996.

NOVAES, R. Juventude e sociedade : jogos de espelhos, sentimentos, percepções e demandas por direitos e políticas públicas. Revista Sociologia Especial: ciência e vida, São Paulo, 2007.

Outras referências:

BETIM, Felipe. Jovens tem choque de consciência sobre privilégios e injustiças do Brasil durante a pandemia. EL Pais - BR, São Paulo, 12/05/2020. Disponível em: <https://brasil.elpais.com/sociedade/2020-05-12/jovens-tem-choque-de-consciencia-sobre-privilegios-e-injusticas-do-brasil-durante-a-pandemia.html>. Acesso em: 13 de Maio de 2020.

SOUZA, Cleber; ADORNO, Luís. Jovens desafiam covid-19 na periferia de São Paulo com rolê e beijo na boca. São Paulo, 14/05/2020. Uol Notícias. Disponível em: <https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2020/05/14/jovens-ignoram-coronavirus-em-bairros-da-periferia-de-sao-paulo.htm?cmpid=copiaecola>. Acesso em: 16 de Maio de 2020.

 



Jovens Evangélicos de São Gonçalo e o Covid-19

Por Alline de Assis Xavier Maia

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Legenda acessível: print de um post no facebook que coloca as seguintes associações: uma máscara “para proteger a boca”, álcool gel “para proteger as mãos”, óculos de proteção “para proteger os olhos” e uma bíblia “para proteger o mundo”.


A pandemia provocada pelo Covid-19 trouxe muitas mudanças ao mundo globalizado. Todos os setores sociais tiveram de se reinventar mediante essa epidemia. No caso brasileiro, o novo vírus trouxe à tona um problema antigo que há muito acompanha o país: a desigualdade social. Noticiários diários têm colocado esta questão na ordem do dia: redes de solidariedade que ganharam ênfase, nosso maltratado sistema de saúde, os transtornos para conseguir um auxílio emergencial, a falta de investimento em ciência, entre tantas outras pautas.


Nesse cenário, a ciência passou a ser evocada nos meios midiáticos, buscando a valorização dos cientistas. A ideia da busca da ciência como meio de solução para a crise provocada pelo vírus passou a incomodar alguns setores evangélicos, que resolveram fazer uma manifestação a fim de incentivar seus fiéis ao não “endeusamento da ciência”. Em outras palavras, num momento tão crítico e desafiador, alguns setores evangélicos estão aproveitando o cenário para tentar avançar sobre a utilização da Bíblia como fonte de verdades e moralidades e, em contrapartida, frear a ideia da ciência como meio racional de resolver a situação.


Mediante a esse cenário de colapso, parte das igrejas evangélicas, destacando-se as neopentecostais, que vêm crescendo de maneira exponencial no Brasil, sobretudo no Rio de Janeiro, também passou a palpitar sobre o surgimento do Covid 19, e seus líderes religiosos posicionaram-se quanto ao tratamento religioso do tema.


Assim, Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus, associou o vírus a mais uma artimanha satânica1. Malafaia manifestou-se contrariamente ao fechamento das igrejas como tática de conter a expansão do vírus. Valdemiro passou a vender a “semente da cura”2. R.R. Soares optou por reuniões virtuais individuais nas casas dos fiéis, com o objetivo de expulsar o vírus através do ritual típico desta denominação que se constitui da oração do copo com água3. Ou seja, a solução seria no plano da fé e não da ciência.


Neste contexto de isolamento social, a utilização da netnografia digital que, de maneira simples, pode ser entendida como uma investigação etnográfica realizada através das redes sociais, permitiu a possibilidade de estudar e acompanhar um grupo de jovens evangélicos através dos ambientes digitais, proporcionando a reflexão sobre os comportamentos observados, uma vez que estes refletem hábitos, costumes, visões de mundos, entre outras perspectivas.


O acompanhamento, durante o mês de março, da interação e das postagens de um grupo na rede social do Facebook, composto por cerca de 200 componentes, que se propõe a reunir jovens evangélicos membros de uma igreja Assembleia de Deus, instalada numa área de favela, no 4º distrito do município de São Gonçalo na região metropolitana do Rio de Janeiro, sugere que as publicações desses jovens evangélicos, que, segundo a descrição do próprio grupo, engloba jovens com idade entre 11 e 22 anos, podem servir como uma espécie de termômetro para medir o quanto estes se posicionam mediante a ciência.


Entre os posts, que variam entre a dificuldade de estudar via EAD e a saudade do convívio social nos espaços das igrejas, há nessas publicações uma tentativa de enfrentar a pandemia e os problemas desencadeados pelo vírus pela via religiosa. Neste sentido, o grupo recorre tanto às explicações espirituais quanto soluções de mesma natureza para resolver o problema. Assim, pode-se identificar um conflito entre a ciência e a religião.


Apesar de aderirem, na medida do possível, a estratégias propostas pela ciência como o isolamento social e a higienização constante das mãos, tais jovens recorrem à explicação religiosa para a ocorrência da doença a partir de um combate espiritual, baseado em trechos proféticos da Bíblia Sagrada.


O surgimento do vírus, para estes jovens, está relacionado ao Carnaval do presente ano, mais precisamente ao desfile da escola de samba Mangueira, que retratou na avenida um Jesus Cristo histórico. Em um determinado momento da evolução da agremiação, há um conflito entre Jesus e o Diabo, no qual o messias sai derrotado da avenida. Isso justificaria o surgimento do vírus, para essa parcela de evangélicos.


As fundamentações para a existência do vírus, enquanto uma espécie de praga como a presente no antigo testamento no relato de Moisés e o povo do Egito, aparecem nos posts como alertas para o povo de Deus. Dessa forma, antes de ter uma fundamentação científica, que não chega a ser negada por esses jovens, há uma questão maior: os não evangélicos debocharam de Jesus Cristo no Carnaval.


Deus, entristecendo-se com tal atitude, resolveu vingar-se, permitindo que o vírus se manifestasse na terra. Assim, para o grupo em análise, aqueles que são verdadeiramente evangélicos podem ser poupados. Mais uma vez, a fundamentação baseia-se na Bíblia: “Nenhuma praga chegará à tua tenda. O senhor guardará”.


Na visão desses jovens, a erradicação do vírus só será possível quando todos os seres humanos existentes na terra curvarem-se diante de Jesus. Somente nesse momento será possível encontrar cientificamente a solução para o problema. Dessa maneira, pode-se perceber que não há uma negação radical da ciência para o grupo de jovens em questão, mas que a ciência está submetida às profecias bíblicas.


O possível fechamento dos templos em virtude da pandemia e da necessidade do isolamento social foi encarado pelos jovens como um desafio diabólico. Porém, a resposta divina foi rápida e a solução foi imposta através das redes sociais: “Os templos estão fechados, mas através da tecnologia, Deus abriu uma igreja em cada casa!”.


O apego à religião e à explicação de mundo por essa via apontam que, ao menos entre esses jovens, que não são assistidos pelo Estado em diversas esferas, na via espiritual, mais precisamente dentro dos aspectos do “evangelismo pentecostal”, pode haver uma forma de sobreviver e enfrentar os problemas que lhes foram impostos. Afinal, é desesperador assistir aos noticiários e entender que não lhes resta outra opção além da fé.



Embora seja observável uma tentativa de levar a produção científica brasileira ao colapso na atual atuação de alguns políticos brasileiros, ainda resta uma esperança aos que lutam pela sobrevivência da ciência neste país: embora tais líderes orientem o não “endeusamento da ciência”, esta ainda não foi “demonizada” pela juventude em questão, moradora do 4º município mais evangélico da região metropolitana do Rio de Janeiro.


Por enquanto está apenas submissa à Bíblia Sagrada. Talvez essa situação possa ser repensada pois, num cenário onde o presidente da república e seus ministros, como a Damares, assumem a vontade de inserir a Bíblia no espaço escolar de maneira formal em substituição aos saberes científicos e escolares, os jovens pobres que ainda ousam frequentar a escola pública demonstram guardar uma certa afinidade e respeito à ciência, dando indícios de que ainda é possível retomar a visão e o esclarecimento da importância do investimento científico para os mais variados ramos de uma sociedade, na qual a escola também se inclui.


Alline de Assis Xavier Maia é doutoranda do PPGHS da UERJ e professora da rede Estadual de Educação Do Rio de Janeiro.


Links:

Manifesto dos lideres evangelicos contra o endeusamento da ciência: https://odia.ig.com.br/brasil/2020/05/5913072-lideres-evangelicos-lancam-manifesto-criticando--endeusamento-da-ciencia.html

Projeção de jaleco dobre Cristo Rdentor em homenagem aos médicos: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2020/04/12/cristo-redentor-veste-jaleco-em-homenagem-a-medicos-durante-pandemia-do-coronavirus.ghtml

Recorde de vítimas de covid-19 em Sâo Gonçalo - RJ: https://www.osaogoncalo.com.br/geral/82179/sg-tem-recorde-de-vitimas-de-covid-19-nesta-terca-com-oito-obitos

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1 https://www.poder360.com.br/midia/edir-macedo-diz-que-coronavirus-e-inofensivo-e-tatica-de-satanas/, acessado em maio de 2020.

2 https://odia.ig.com.br/brasil/2020/05/5912402-pastor-valdemiro-santiago-vende-por-r--1-mil-semente--que-cura-covid-19.html#foto=1, acessado em abril de 2020.

3 https://www.metropoles.com/brasil/pastor-rr-soares-promete-agua-consagrada-para-curar-coronavirus, acessado em maio de 2020.

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Estes textos são parte de uma série de boletins sequenciais sobre o coronavírus e Ciências Sociais que está sendo publicada ao longo das próximas semanas. Trata-se de uma ação conjunta que reúne a Associação Nacional de Pós-Graduação em Ciências Sociais (ANPOCS), a Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS), a Associação Brasileira de Antropologia (ABA), a Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP) e a Associação dos Cientistas Sociais da Religião do Mercosul (ACSRM). Nos canais oficiais dessas associações estamos circulando textos curtos, que apresentam trabalhos que refletiram sobre epidemias. Esse é um esforço para continuar dando visibilidade ao que produzimos e também de afirmar a relevância dessas ciências para o enfrentamento da crise que estamos atravessando.

A publicação deste boletim também conta com o apoio da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC/SC), da Associação Nacional de Pós-Graduação em Geografia (ANPEGE), da Associação Nacional de Pós-Graduação em História (ANPUH), da Associação Nacional de Pós graduação e Pesquisa em Letras e Linguística (Anpoll) e da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional (Anpur).

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