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Boletim Especial n. 33 - 21/12/2020



No Boletim n. 33, Patricia Chmielewski (FFLCH-USP) colabora com um recorte de uma etnografia multissituada, em andamento, sobre feminismos asiáticos brasileiros na internet. A partir da análise de depoimentos em torno de uma comunidade ativa na página de fotografia Asiatique, projeto desenvolvido no Instagram, o texto explora debates, relatos e construção de solidariedades mútuas de mulheres asiáticas em tempos de xenofobia exacerbada.

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Feminismos Asiáticos Brasileiros em tempos de pandemia: um olhar para o projeto Asiatique


Por Patricia Chmielewski

Imagem: nuvem de palavras elaborada pela autora a partir de dados públicos da página de Instagram @projetoasiatique


O isolamento social causado pela pandemia tem reiterado cada vez mais o papel da internet como forma de se manifestar, disputar narrativas e atribuir novos sentidos ao fazer coletivo. No caso dos feminismos asiáticos brasileiros, meu campo de estudo, a internet vem desempenhando papel fundamental desde suas gêneses. Os coletivos começaram a se organizar através das redes sociais, principalmente a partir de 2016, em iniciativas como as do grupo de Facebook "Feminismo Asiático", das páginas "Perigo Amarelo", "Plataforma Lótus" e "Asiáticos pela diversidade" e do blog "Outra Coluna". De lá para cá, grupos se proliferaram, discursos se popularizaram, atingiram outras redes e formatos e agora, com a Covid-19, trazem contribuições para as discussões étnico-raciais em tempos de crise.

Venho acompanhando os principais grupos e ativistas que tratam do tema na internet em eventos e cursos, bem como através da repercussão sobre o assunto na mídia hegemônica através de metodologia de etnografia multissituada (MARCUS, 1995) nos últimos 2 anos. Busco com isso mapear esse movimento em formação, suas tensões, e entender o papel do uso das novas TICs, tecnologias de informação e comunicação (CASTELLS, 2013) na produção de  sujeitos através da vivência do ciberativismo. Para isso, parto da definição dos feminismos como campos discursivos de ação que se articulam através de redes político-comunicativas (ALVAREZ, 2014). Da mesma forma, me interessa o conceito de prosumers (FERREIRA, 2015), a partir do qual os sujeitos produzem a si mesmos enquanto produzem seus discursos sobre feminismo, dentro e fora da internet. Outro conceito que ajuda a complexificar as experiências vividas por essas mulheres é a ideia de colonialismo de dados (COULDRY, 2020), que trata da discussão sobre a apropriação de recursos e relações sociais feitas pelas grandes empresas que controlam as redes sociais, criando assimetrias de poder e legitimando determinadas ideias e comportamentos em detrimento de outros.

Analisando o cruzamento entre feminismos asiáticos brasileiros e a pandemia, é interessante resgatar que, meses antes do primeiro caso da Covid-19 no Brasil, uma matéria sobre os casos na China (PINHEIRO-MACHADO, 2020) já alertava como epidemias e crises sanitárias explicitam racismo, estigma e discursos colonialistas. Outra matéria, publicada na revista Elle (LEE, 2020), observa como o sentimento anti-asiático por trás da nomeação da Covid-19 como o "vírus chinês" trouxe de volta ao dia a dia a ideia das pessoas amarelas como um "inimigo invisível". O ressurgimento deste fenômeno, atrelado ao fato de que as mulheres asiáticas sentem falta de espaços para discutir as especificidades de suas identidades, e a ampliação do uso das redes por conta do isolamento social, tem feito com que mais mulheres busquem nos coletivos respostas a suas inquietações. Isso aconteceu, por exemplo, com a estudante Mariana Martins Kiotoki, que, em depoimento para O Globo (OLIVA, 2020), conta como começou a se entender asiática a partir de conteúdos na internet durante o isolamento social.

Um projeto que traz conteúdos assim é o Asiatique (PROJETOASIATIQUE, 2020), uma página de fotografia no Instagram feita por mulheres asiáticas, que tem como intuito criar espaços de auto aceitação e desabafo para outras mulheres asiáticas. Consiste em postagens de fotos das mulheres, que fazem parte de ensaios curtos, seguidas de depoimentos. Analisando mais de 110 depoimentos de mulheres asiáticas que participaram do projeto, é possível identificar temas recorrentes, ainda que vindos de mulheres bastante diferentes entre si. Os relatos contemplam mulheres de família chinesa ou japonesa, descendentes da Tailândia, Coreia do Sul, Okinawa, Taiwan, de países do leste asiático, além de mulheres que se identificam como birraciais ou inter-étnicas, e se dizem descendentes da mistura de europeus, negros ou nordestinos com asiáticos. 

Algumas falas mostram as dificuldades de inserção em contextos familiares tradicionais, machistas e conservadores, cujas expectativas são a de performar feminilidades através da disciplina, da submissão, do silêncio e da aceitação de violências cometidas pelos antepassados. Algumas mulheres falam também sobre a busca por padrões inatingíveis que são esperados de mulheres asiáticas em termos físicos, como altura, peso, pele e cabelos, e comportamentais, como falar as línguas dos antepassados ou alcançar o sucesso exigido das minorias tomadas como modelo. Muitas relatam ainda períodos de vida no país de origem da família, que geram um certo nível de choque cultural no retorno ao Brasil e vivências associadas à xenofobia. Todas essas questões dificultam a articulação de identidades como brasileiras e, muitas vezes, resultam em sentimentos de não pertencimento ou de não lugar.

Outras mulheres contam como a experiência de viver em ambientes majoritariamente brancos, sendo classificadas a todo momento como exóticas, estrangeiras, fetichizadas e objetificadas, as levou a repudiar a identidade asiática e a buscarem o embranquecimento e um certo nível de passabilidade. Tal busca em geral não é benéfica e leva a sentimentos como isolamento, angústia, dificuldade de sociabilidade, frustração e falta de referências para a construção da própria identidade. 

Também aparece com frequência a satisfação por participarem do projeto e se sentirem assim em experiências de autoconhecimento e imersão nas próprias identidades. Muitas delas dizem estar vivendo muito recentemente o processo de investigar suas identidades e de tentar fazer as pazes com sua ancestralidade. Outras falas positivas apontam para como esse momento de autodescoberta as torna mais empáticas e sensíveis às experiências de outras pessoas racializadas e faz com elas se sintam engajadas na luta antirracista e pelos direitos dos imigrantes e refugiados. Muitas delas reforçam o entendimento de que, embora significativas, suas opressões não se comparam às das mulheres negras, com as quais elas devem se comprometer para promover mudanças. Da mesma forma, algumas mulheres apontam também para a busca de uma ressignificação de suas experiências subjetivas para além de um olhar colonizado.

Iniciativas como as proporcionadas pelo Asiatique e por outras ativistas e coletivos dos feminismos asiáticos brasileiros apontam para o enorme potencial das TICs como ferramentas de pedagogia feminista e de promoção plural de narrativas e identificações raciais e de gênero. Além disso, indicam  como a investigação da própria identidade pode levar à criação de laços reais de solidariedade, cada vez mais importantes em tempos de crise como os que estamos vivenciando na atualidade.

Patricia Chmielewski é Mestranda do Programa Pós-Graduação em Antropologia Social (PPGAS) da FFLCH - USP e estuda os feminismos asiáticos brasileiros e suas relações com a internet.

Bibliografia:

ALVAREZ, Sonia E. 2014. Para além da sociedade civil: reflexões sobre o campo feminista. Cadernos Pagu [online]. n.43

CASTELLS, Manuel. Redes de indignação e esperança: movimentos sociais na era da internet. 1 edição. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.

COULDRY, Nick. MEJIAS, Ulises A. The Costs of Connection - How data is colonizing human life and appropriating it for capitalism. California: Stanford University Press, 2019.

FERREIRA, Carolina Branco de Castro. 2015. Feminismos web: linhas de ação e maneiras de atuação no debate feminista contemporâneo. Cadernos Pagu [online]. n.44

LEE, Caroline Ricca. 2020. Foxy eyes: um convite para o diálogo. ELLE, São Paulo, 11 de nov. de 2020. Disponível em: <https://elle.com.br/beleza/foxy-eyes-olhos-de-raposa>. Acesso em: 15 de nov. de 2020.

MARCUS, G. Ethnography in/of the world system: the emergence of multi-sited ethnography. Annual Review of Anthropology, n. 24, p. 95-117, 1995.

OLIVA, Gabriela. Feminismo asiático: seis mulheres dizem pelo que lutam. O Globo, Rio de Janeiro, 1 de set. de 2020. Disponível em: <https://oglobo.globo.com/celina/feminismo-asiatico-seis-mulheres-dizem-pelo-que-lutam-24611520>. Acesso em: 15 de nov. de 2020.

PINHEIRO-MACHADO, Rosana. 2020. Coronavírus expõe a nossa desinformação sobre a China, o maior fenômeno econômico dos nossos tempos. The Intercept Brasil. São Paulo, 28 de jan. de 2020. Disponível em: <https://theintercept.com/2020/01/28/coronavirus-desinformacao-china>. Acesso em: 15 de nov. de 2020.

PROJETOASIATIQUE. Instagram. <https://www.instagram.com/projetoasiatique>. Acesso em: 15 de nov. de 2020.

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Este texto é parte de uma série de boletins sequenciais sobre a questão étnico-racial em tempos de crise que está sendo publicada ao longo das próximas semanas. Trata-se de uma ação conjunta que reúne a Associação Nacional de Pós-Graduação em Ciências Sociais (ANPOCS), a Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS), a Associação Brasileira de Antropologia (ABA), a Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP) e a Associação dos Cientistas Sociais da Religião do Mercosul (ACSRM). Nos canais oficiais dessas associações estamos circulando textos curtos, que apresentam trabalhos que refletiram sobre epidemias. Esse é um esforço para continuar dando visibilidade ao que produzimos e também de afirmar a relevância dessas ciências para o enfrentamento da crise que estamos atravessando.

A publicação deste boletim também conta com o apoio da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC/SC), da Associação Nacional de Pós-Graduação em Geografia (ANPEGE), da Associação Nacional de Pós-Graduação em História (ANPUH), da Associação Nacional de Pós graduação e Pesquisa em Letras e Linguística (Anpoll) e da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional (Anpur).

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