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Boletim Especial n. 37 - 29/12/2020



No Boletim n. 37, Alessandra K. Tavares de Oliveira (USP) e Milena Mateuzi (USP) articulam a história de três mulheres negras que, em suas idiossincrasias, evidenciam o impacto da pandemia da Covid-19 nas comunidades periféricas. As histórias evidenciam também o papel assumido pelas redes de articulação criadas nas periferias de São Paulo no combate à fome nestas comunidades e a sobrecarga emocional do ato de “cuidar”, papel assumido pelas mulheres, majoritariamente negras, no ativismo em tempos de pandemia.

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“Dar conta”: cuidado, afeto e redes de ativismo em tempos de pandemia


Por Alessandra K Tavares de Oliveira e Milena Mateuzi Carmo

Foto: “8M na Quebrada”, ação de ativistas da zona sul de São Paulo. Foto por Paula Serra, tirada na estação Capão Redondo do Metrô, uso autorizado.


As coisas andam mais difíceis agora. Não dá para trabalhar. Lá no prédio da minha patroa não entra mais ninguém. Só pode entrar se for parente. Você acredita que ela me ligou dizendo para falar na portaria que era avó dela? Eu lá tenho cara para ser avó daquela marmanja! Eu nem tenho cara para falar uma mentira dessas...

A gestão da vida, do corpo físico, da circulação compõe hoje uma nova gramática moral que inundou nosso cotidiano com a chegada da COVID-19 na cidade de São Paulo. A pandemia avolumou nossos cuidados fundamentais e fez com que as formas de trabalho contemporâneas ultrapassassem de vez os limites entre público e privado. Preta, que é diarista, é impedida de trabalhar devido ao isolamento social, mas, ainda assim, é convocada pela patroa a burlar o sistema de segurança sanitária do prédio. Ela se sente “atacada, ofendida em seu lugar de mulher”, ao ser comparada com a avó da patroa. Preta é uma mulher exuberante, na casa dos 40 anos e muito conhecida no samba. Trabalha como diarista quatro dias da semana, mas agora está sem trabalhar. “Diarista, quando não trabalha, não ganha”,  como o próprio nome sugere. Agora, em casa, com seus três filhos, acumula preocupações e tarefas com a vida escolar deles, com sua mãe e com a renda para todos.

“O mundo está se acabando”, minha vó descreveria desse jeitinho este momento. O fim do mundo veio mais cedo para ela. Idosa, negra, empregada doméstica e moradora de favela. Todo mundo morre, tem mortes que são mais tristes. Essa é triste porque lembra que a gente nunca sobrevive e que tudo bate deste lado primeiro.

Sem velório. Rosa fala chorando para algumas pessoas que lotam sua casa pequena. Emoção e aglomeração, algumas pessoas com máscaras e outras sem. A despedida mais emocionada da vó aconteceu em casa. Vizinhos, amigos e parentes se uniram para chorar e dar algum contorno ao momento vivido por ela e sua família. Somente três pessoas estiveram no enterro. Há mais de 20 dias na UTI, Dona Maria não resistiu. Rosa passou o longo mês de maio se dividindo entre ligações para o hospital de campanha, filhos, home office e o cuidado emocional com parentes. Dona Maria era muito querida pelos vizinhos, mais de 40 anos no bairro. Sua perda coloca todos em choque. A pandemia é séria, real e próxima, mesmo que muitos não acreditassem. Rosa, que é ativista feminista, professora da rede pública e articulada às redes que se formam para distribuir cestas básicas na periferia, é agora também vítima da pandemia.

Eu vi pessoas chorando: “Se vocês não tivessem me dado esta cesta básica, eu não ia ter o que dar para os meus filhos comer hoje”. Teve gente pedindo duas cestas básicas pra vender uma e conseguir comprar o gás: “Se você me der uma eu vou ter que escolher entre ficar com o alimento cru ou comprar o gás... Pela primeira vez na vida, eu tenho sido procurada por pessoas que falam assim: “eu não tenho o que comer!”.

Eliane é assistente social do Serviço de Assistência Social da Família (SASF). Mulher negra, moradora da zona sul, mãe de dois filhos e integrante de coletivos negros e feministas da região. Diz estar cansada. A equipe do serviço tenta se revezar no atendimento às famílias, buscando se equilibrar entre as frustrações por não “dar conta” das demandas das pessoas atendidas e os cuidados extras vindos de suas próprias famílias: mortes, doenças, acompanhamento escolar dos filhos, etc.

Todas essas histórias orbitam em torno das redes de articulação criadas nas periferias de São Paulo para o enfrentamento à pandemia da COVID-19. Essas redes já articulavam experiências e formas de cuidado e se reorganizam para uma prática abandonada há muito tempo pelos movimentos sociais e pouco assumida, desde sempre, pela rede pública socioassistencial. Arrecadação de produtos de higiene, cestas básicas, roupas, itens de limpeza e higiene pessoal, gás de cozinha, remédios, dinheiro para completar o aluguel, que antes apareciam como necessidades emergenciais do “final do mês”, agora surgem como escassez generalizada. A fome e o medo dela passaram a fazer parte do cotidiano de muitas famílias e redes de ativismos.

Nessas narrativas se entrelaçam o trabalho do cuidado, o emprego doméstico, a maternidade, a docência, as redes feministas, a necessidade de continuar trabalhando, o serviço socioassistencial, o ativismo para garantia de direitos. Nas lives, encontros virtuais e, em poucas ocasiões presenciais, começaram a aparecer o cansaço, o esgotamento emocional, a preocupação excessiva vivida por essas mulheres. “Dar conta” passou a fazer parte de uma forma ainda mais cruel do vocabulário do cuidado. Esse “dar conta” vai além da esfera íntima e privada. Dar conta de arrumar mais uma cesta básica, de realizar uma entrega distante, da mãe idosa que está sem cuidadora, de ajudar os filhos na lição de casa, de trabalhar e cuidar dos serviços domésticos, de ficar bem durante o isolamento social, de apoiar e acompanhar o bem estar de outras mulheres que fazem parte de suas redes. Nas palavras de Antônia, atuante na rede de arrecadação do Jardim São Luís. “Não consigo dar conta de ajudar a Preta como ela precisa”.

A pandemia deu novas tintas ao trabalho de cuidado realizado pelas mulheres, majoritariamente negras, dentro da rede de ativismo. E, nessa operação cotidiana, que articula trabalho home office, para algumas, tarefas com a casa e família, para quase todas, e as demandas dessas ações comunitárias e coletivas, cuidado é a gramática que atravessa todas essas dimensões. É a partir do cuidado que muitas dessas redes e coletivos foram anteriormente articulados, cuidado esse que, apesar de provocar sobrecargas e adoecimentos, é também uma prática que reconstrói laços e mundos, inclusive com outras mulheres.

Alessandra K. Tavares de Oliveira é mestranda do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da USP (PPGAS-USP) e integrante do Núcleo de Estudos sobre Marcadores Sociais da Diferença (Numas/USP).

Milena Mateuzi Carmo é mestre e doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da USP (PPGAS-USP) e integrante do Núcleo de Estudos sobre Marcadores Sociais da Diferença (Numas/USP).

Referências:

DAS, Veena. O ato de testemunhar: violência, gênero e subjetividade. Cad. Pagu [online]. 2011, n.37, pp. 9-41

FERNANDES, Camila. Figuras do constrangimento: as instituições de Estado e as políticas de acusação sexual. In: Mana [online]. 2019, vol.25, n.2, Mai/ Aug, 2019. pp.365-39. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-93132019000200365. Acesso em:  04/06/2020.

MOUTINHO, Laura. Sob a ótica do feminino: raça e nação, ressentimentos e (re)negociações na África do Sul pós-apartheid. In: WERNECK, Alexandre; CARDOSO DE OLIVEIRA. (Org.). Pensando bem: estudos de Sociologia e Antropologia da moral. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2014, v. 1, p. 150-170.

PIMENTA, Denise. Pandemia é coisa de mulher: breve ensaio sobre o enfrentamento de uma doença a partir das vozes e silenciamentos femininos dentro das casas, hospitais e na produção acadêmica. In: Tessituras: Revista de Antropologia e Arqueologia, v. 8, p. 8-19, 2020. Disponível em: https://periodicos.ufpel.edu.br/ojs2/index.php/tessituras/article/download/18900/11446. Acesso em: 04/06/2020.

VIANNA, Adriana; LOWENKRON, Laura. O duplo fazer do gênero e do Estado: interconexões, materialidades e linguagens. In: Cadernos Pagu,  Campinas ,  n. 51,  e175101, jan., 2017. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-83332017000300302&script=sci_abstract&tlng=pt. Acesso em: 04/06/2020.

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Este texto é parte de uma série de boletins sequenciais sobre a questão étnico-racial em tempos de crise que está sendo publicada ao longo das próximas semanas. Trata-se de uma ação conjunta que reúne a Associação Nacional de Pós-Graduação em Ciências Sociais (ANPOCS), a Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS), a Associação Brasileira de Antropologia (ABA), a Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP) e a Associação dos Cientistas Sociais da Religião do Mercosul (ACSRM). Nos canais oficiais dessas associações estamos circulando textos curtos, que apresentam trabalhos que refletiram sobre epidemias. Esse é um esforço para continuar dando visibilidade ao que produzimos e também de afirmar a relevância dessas ciências para o enfrentamento da crise que estamos atravessando.

A publicação deste boletim também conta com o apoio da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC/SC), da Associação Nacional de Pós-Graduação em Geografia (ANPEGE), da Associação Nacional de Pós-Graduação em História (ANPUH), da Associação Nacional de Pós graduação e Pesquisa em Letras e Linguística (Anpoll) e da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional (Anpur).

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