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Corrupção: Um Estudo sobre Poder Público e Relações Pessoais no Brasil

torcidas

Autor: Marcos Otávio Bezerra
ISBN: 85-7316-039-X
Editora: ANPOCS, Relume Dumará
Edição: 1995
Número de páginas:

Sinopse: Capitalismo ou feudalismo? Atraso ou modernização sem mudança? Autori­tarismo ou liberalismo? Racionalidade das normas ou irracionalidade dos vínculos interpessoais? O entendimento da sociedade brasileira tem sido com frequência mediado por um conjunto de pares polares. Tal forma de pensar é elucidativa mais dos limites das pesquisas por elas estruturadas, de seus ali­cerces teórico-políticos, do que das relações a serem descritas. São comparações implícitas sempre redivivas que nos opõem — e a um suposto mundo de origem "ibérica" — aos Estados Unidos e ao "mundo anglo-saxão".

De fato são dicotomias capazes de, a exemplo dos diacríticos étnicos, construírem identida­des contrastivas, positivadas ou não, mas principalmente encobridoras de fenômenos de maior envergadura, impensados capazes de sustentar automatismos constitutivos do cotidiano.

Sem desconhecer as especificidades histórico-culturais, a pesquisa resultante no livro de Marcos Otávio Bezerra permite ultrapassar esse tipo de apreensão mais imediata do sen­so comum — e do senso comum erudito — acerca da vida social brasileira. Entretanto, a partir de uma démarche construtivista, um dos temas mais polêmicos dos anos nos quais se elaborou, o livro aborda as chamadas prá­ticas corruptas antes de tudo como objeto de conhecimento: sem paixões morais, mas tam­bém sem retóricas supostamente analíticas, nada distantes de pesadas reificações de com­portamentos arraigados.

Ao produzir a corrupção como objeto de conhecimento, o livro demonstra o quanto a investida da razão é capaz de vitalidade, mes­mo quando os manifestos "religiosos", anti-cientificistas, e a crença num poder quase transcendente das imagens e na incomunica­bilidade tornam-se a cada dia mais frequentes nas Ciências Humanas. O esforço de objetivação necessário ao conhecimento científico é aqui presidido pelo trabalho sobre material empírico cuidadosamente analisado, sem os traços característicos do "ensaísmo brilhante" com que o grande público muitas vezes iden­tifica o sociólogo/antropólogo. Isto não signi­fica, porém, estarmos longe dos processos interpretativos e do bom texto.
Retomando temas clásicos da Antropolo­gia Social como os do parentesco, da recipro­cidade nas trocas, da expressão diferencial de sentimentos e relações como os da gratidão e da amizade, o autor recoloca problemas ca­racterísticos da pesquisa em Ciência Política do ponto de vista singular da Antropologia Social — aquele que insiste em ouvir a versão dos agentes concretos, seja sob forma oral, seja sob forma escrita, para então realizar sua investida sobre um universo de significados concebidos como outro. Os processos de construção de Estado, o funcionamento da burocracia, das fronteiras entre o público e o privado, a própria noção de legitimidade ga­nham um outro terreno para serem discutidos a partir de experiências sociais concretas, sem que se iludam problemas de maior abrangên­cia com uma simples adjetivação: o à brasilei­ra, comum aos "ideólogos" de nosso "siste­ma", tão sem ideologias aparentes.

A coragem e o rigor de Marcos Otávio Bezerra ao enfrentar um tema que, por seu caráter quente e grande visibilidade, poderia virar denúncia fácil ou amontoado de lugares comuns, e a real demonstração de maestria em realizá-lo, mereceram o reconhecimento da corporação de cientistas sociais através do prémio de melhor dissertação de mestrado do ano, conferido em 1994 pela Associação Na­cional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciên­cias Sociais (Anpocs). Trata-se aqui, enfatizo, de boa Antropologia, para além dos estereóti­pos com que vulgarmente se identifica esta disciplina. Um sinal da força e da relevância de um saber e de uma perspectiva que, mais uma vez, aqui se afirmam capazes de expan­são sobre outros terrenos, com novas contri­buições.

António Carlos de Souza Lima
Professor do PPGASDepartamento de AntropologiaUFRJ